Tráfico se Estrutura como Corporação no Rio de Janeiro
As facções criminosas no Rio de Janeiro deixaram de operar de forma amadora e agora se assemelham a grandes corporações, com uma estrutura organizacional complexa e funções altamente especializadas. Um levantamento detalhado revelou a existência de até 25 cargos distintos dentro dessa engrenagem, que abrange desde a logística e finanças até o uso de tecnologia de ponta.
Essa profissionalização visa não apenas aprimorar a distribuição de drogas, mas também consolidar o controle territorial e expandir as fontes de lucro. A nova configuração é um reflexo da adaptação do crime organizado às estratégias de combate do Estado e à crescente disputa por domínio em comunidades.
As informações foram compiladas com base em dados da Polícia Civil e do Ministério Público do Rio, além de entrevistas com ex-traficantes, intermediadas pela Central Única das Favelas (Cufa). A pesquisa mapeou funções que vão desde as mais tradicionais até as recém-criadas, impulsionadas pela tecnologia e pela busca por maior rentabilidade e segurança.
Engenharia de Barricadas e Monitoramento Tecnológico
Entre as novas funções identificadas, destaca-se o gerente ou mentor de barricadas, responsável por planejar, montar e manter obstáculos físicos para dificultar o avanço policial. Essa figura, que pode atuar com conhecimentos de engenharia, coordena a logística de materiais e a estratégia de posicionamento dos bloqueios, que evoluíram de simples entulhos para estruturas sofisticadas, por vezes eletrificadas ou com explosivos.
O avanço tecnológico também se manifesta na figura do gerente de monitoramento por drone. Criminosos especializados operam drones e sistemas de detecção para vigiar a presença policial e atividades em suas comunidades. Essa função inclui não apenas o monitoramento, mas também ações de contrainteligência, como a captura de drones das forças de segurança.
A sofisticação dessas táticas é tamanha que o Rio de Janeiro passou a contar com um batalhão da Polícia Militar dedicado especificamente a desmantelar bloqueios. Essa resposta estatal, por sua vez, impulsiona a especialização dos criminosos em criar e manter essas barreiras.
Diversificação de Fontes de Renda e Controle Territorial
A mudança de foco do tráfico, que passou a priorizar o controle territorial em detrimento da mera comercialização de drogas, impulsionou a criação de novas funções. O promotor Fabio Corrêa explica que o domínio de ruas, comércios e até mesmo eventos como bailes funk se tornou mais rentável e estratégico.
Nesse contexto, surgiram funções como o gerente de “bairros”, responsável por estruturar e gerenciar a cobrança de extorsões de comerciantes e, em alguns casos, de moradores. Essa figura atua como um elo administrativo entre o controle territorial e o caixa da organização, centralizando a arrecadação e repassando os valores à liderança.
Os roubos, especialmente de veículos, também foram integrados de forma estruturada à engrenagem financeira das facções. Há uma articulação direta entre assaltantes e a facção dominante no território, que oferece segurança para a movimentação de cargas roubadas e veículos, utilizando laranjas para alugar galpões e gerenciar a logística.
Especialização em Infraestrutura e Combate Aéreo
A especialização do tráfico se estende à construção e manutenção de infraestruturas subterrâneas, como túneis, bunkers e rotas de fuga. Embora os responsáveis por essas escavações raramente sejam capturados durante operações, o padrão repetitivo indica a existência de mão de obra especializada, possivelmente com experiência prévia em obras civis ou cooptada para a finalidade.
Em resposta ao crescente uso de aeronaves policiais em operações, o tráfico desenvolveu grupos de combate antiaéreo. Esses núcleos reúnem atiradores de elite e operadores de munição traçante, que utilizam táticas de guerrilha para estudar e atacar helicópteros, buscando impor no ar o mesmo controle territorial exercido no solo.
A estrutura do tráfico também abrange funções auxiliares, como os “formiguinhas”, responsáveis pelo transporte de pequenas quantidades de drogas, e os “fieis”, que realizam vigilância noturna. Jovens recrutados para atuar em fins de semana ou períodos de eventos, conhecidos como “sabadões” ou “malandrex”, também desempenham papéis importantes no suporte logístico e na comunicação interna.
Motores da Modernização e Fortalecimento Policial
A Polícia Civil aponta dois motores centrais para a modernização do tráfico: a proteção contra o Estado, diante de operações especializadas e investigações complexas, e a proteção interna, em meio às constantes disputas territoriais com facções rivais.
Segundo o delegado Moysés Santana, o mapeamento detalhado das funções só foi possível devido ao fortalecimento da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) em três pilares: pessoal, tecnologia e atuação operacional. A chegada de novos policiais e o investimento em investigações telemáticas, financeiras e patrimoniais ampliaram a capacidade de combate ao crime organizado.
A complexidade e o número de funções podem variar significativamente dependendo do domínio territorial e da capacidade financeira de cada facção. Em grandes complexos, como a Penha, a estrutura é ainda mais ramificada, com setores dedicados à logística, finanças, defesa, comunicação, eventos e inteligência criminal, demonstrando um nível sem precedentes de profissionalização do crime organizado no Rio de Janeiro.
Fonte: O Globo
