Ex-governador do Rio de Janeiro, Nilo Batista, avalia o cenário político atual e as decisões judiciais.
O advogado e ex-governador do Rio de Janeiro, Nilo Batista, de 82 anos, expressa profunda insatisfação com o atual panorama político do estado, que descreve como uma ‘salada mista indigesta’. Em entrevista, ele critica a falta de debate ideológico e a superficialidade das discussões, que, segundo ele, se tornaram focadas em interesses imediatos e reeleição, distanciando-se de um conjunto de ideias políticas orientadas.
Batista também manifesta preocupação com a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) em meio à crise institucional do Rio de Janeiro. Ele critica a decisão de manter o desembargador Ricardo Couto como governador interino, mesmo após a eleição de um novo presidente para a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Para o ex-governador, tal medida pode conferir vantagem indevida ao candidato que assumir o cargo.
Outro ponto de crítica são as declarações de ministros do STF, como Gilmar Mendes, que associaram parte da Alerj ao jogo do bicho. Batista defende que tais alegações precisam ser provadas pela polícia, alertando que a disseminação de pânico e a irracionalidade podem levar a decisões equivocadas e prejudiciais ao debate democrático. A ‘política do Rio virou um pânico’, segundo ele.
Origem da Crise Política no Rio de Janeiro
Nilo Batista atribui a contínua crise política no Rio de Janeiro aos efeitos da derrota do brizolismo. Ele descreve o que o sucedeu como uma ‘salada mista, na minha opinião, um pouco indigesta’, contrastando com a força ideológica e o compromisso popular do PDT em décadas passadas. A campanha implacável da Rede Globo e o desgaste gerado foram apontados como fatores cruciais para essa perda de força.
Críticas à Atuação do STF e ao Cenário Jurídico
O ex-governador critica a decisão do STF de manter o desembargador Ricardo Couto como governador interino, considerando que tal medida contraria a Constituição. Ele argumenta que o presidente eleito da Alerj, ao assumir o cargo, teria uma vantagem indevida na campanha. Batista também se opõe às declarações que ligam parte da Alerj ao jogo do bicho sem provas concretas, alertando para o perigo de criar pânico e agir de forma irracional.
Batista defende que a política deve ser discutida com base em ideias e programas, e não em estratégias de curto prazo como a privatização da Cedae para fins eleitorais. Ele lamenta a perda da ideologia no debate político fluminense, o que, em sua visão, é um processo prejudicial à democracia.
Segurança Pública e Política Criminal
Ao abordar a segurança pública, Nilo Batista defende que a aposta no confronto e a legislação ultrapassada sobre drogas, como a questão da cannabis, são caminhos que só pioram a situação. Ele critica a mentalidade de que a pena é o único remédio para mazelas sociais, citando o exemplo de São Paulo para ilustrar que essa abordagem não resolve os problemas.
O ex-governador também alerta para o risco de a esquerda se aliar a discursos de endurecimento penal, o que, segundo ele, não atrai votos de bolsonaristas, mas pode afastar eleitores. Ele ressalta que o sistema penal é uma base eleitoral para a direita e que a esquerda precisa ter um discurso próprio e coragem para defender suas posições, sem cair na armadilha de reforçar o discurso punitivista.
Fonte: Folha de S.Paulo
