Ascensão de Políticos Ligados ao Crime no Rio de Janeiro
A forte concentração de votos em territórios específicos do Rio de Janeiro tem impulsionado a ascensão de políticos com ligações a grupos criminosos. O caso de Belford Roxo (RJ), onde a deputada federal Daniela Carneiro e o ex-deputado estadual Márcio Canella obtiveram expressiva votação em 2022, exemplifica essa dinâmica.
Essa territorialização do voto, onde lideranças locais consolidam poder através de redes de influência que podem incluir atividades ilícitas, tem permitido que figuras com vínculos questionáveis alcancem posições de destaque, como o Ministério do Turismo e almejem vagas no Senado.
Especialistas apontam que essa estratégia, embora possa ter ambições nacionais restritas, serve para solidificar e expandir o poder local e a influência desses agentes. A cientista política Mayra Goulart destaca que a dinâmica eleitoral no Rio de Janeiro é fortemente moldada por essas relações territoriais, tanto lícitas quanto ilícitas.
Crime e Política: Uma Relação Histórica no Rio de Janeiro
A intersecção entre crime e política no Rio de Janeiro não é um fenômeno recente, mas tem ganhado contornos mais explícitos. Operações da Polícia Federal, como a “Unha e Carne”, e declarações de altas autoridades, como o ministro Gilmar Mendes e o presidente Lula, evidenciam a profundidade dessa conexão.
Pesquisadores apontam que a atuação paralela de policiais em grupos de extermínio e a capacidade de exercer o monopólio da força fora da lei tornaram-se moedas de troca que ampliaram o poder de agentes de segurança à margem da lei.
O cientista político João Trajano Sento-Sé explica que esses grupos criam uma espécie de segurança informal privada, muitas vezes financiada por comerciantes e pequenos empresários locais, recrutando inclusive agentes estatais e normalizando sua atuação política.
A Infiltração nas Estruturas de Poder
A força desses grupos, que surgiram a partir da década de 1960, tem se manifestado na interação e, em alguns casos, no comando de quadrilhas de jogo do bicho, milícias e grupos políticos. O caso do ex-PM Adriano da Nóbrega, ligado à milícia de Rio das Pedras e com parentes nomeados no gabinete de Flávio Bolsonaro, é um exemplo notório.
Sento-Sé identifica as câmaras municipais como portas de entrada para esses grupos na política, onde lideranças com controle de votos em territórios dominados por atividades ilegais exercem influência, muitas vezes por meio de ameaças e execuções.
Um relatório do LAV-Uerj aponta que 65 homicídios políticos ocorreram desde 2015 na Baixada Fluminense, a região mais violenta do estado, evidenciando a gravidade do problema.
O Fenômeno do “Candidato de Milícia” e a Paroquialização do Poder
O sociólogo Alexandre Werneck descreve o surgimento do “candidato de milícia”, cuja caracterização vai além da participação direta no crime, mas se alinha a uma filosofia política que oferece uma visão de segurança pública paralela, com um “mito da pacificação primitiva”.
Essa força tem levado à “paroquialização das esferas do poder”, onde debates em palcos nacionais se restringem a questões de baixo impacto federal, como o roubo de celulares, em detrimento de temas como salário mínimo, saúde ou educação.
A cientista política Mayra Goulart associa essa dinâmica ao perfil econômico do Rio de Janeiro, com poucas dinâmicas produtivas fora do petróleo e do setor público, o que limita as margens de enriquecimento de elites fora da política e as direciona para o ganho político.
Casos Emblemáticos e Preocupações Futuras
A relação entre crime e política no Rio de Janeiro ganhou notoriedade com a CPI das Milícias em 2008, que resultou na prisão de diversos políticos. Mais recentemente, o ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi preso sob acusação de vazar informações sobre uma operação policial.
O ex-deputado federal Chiquinho Brazão foi condenado por encomendar o assassinato de Marielle Franco, crime tramado para impedir a vereadora de atrapalhar a atuação da milícia dos irmãos na grilagem de terras.
Wernek expressa preocupação com a infiltração do crime organizado, mas pondera que ela ocorre por interesses específicos e “empreendimentos”, como rachadinhas ou propinas em negócios. Já Sento-Sé vê um cenário de “colonização do Estado pelo crime”, com alto potencial de contágio e ampliação da instabilidade política.
Repercussões e Defesas dos Envolvidos
Daniela Carneiro foi mantida no governo Lula mesmo após revelações sobre vínculos de sua campanha com milicianos. Sua assessoria declarou que o apoio político não implica compactuação com atos ilícitos.
Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo, nomeou condenados por integrar milícias em seu secretariado e foi preso com um fuzil irregular, em investigação de lavagem de dinheiro. Ele justificou as nomeações pela ausência de sentença transitada em julgado.
Fonte: G1
