Fim de uma era: SuperVia encerra operação de trens no Rio com herança de problemas
Após 27 anos e seis meses operando o sistema de trens que conecta a cidade do Rio de Janeiro a outros 11 municípios, a SuperVia realiza nesta sexta-feira (21) a sua última viagem. A composição que partirá da Central do Brasil para Japeri às 23h01 marca o encerramento de uma concessão que transporta cerca de 300 mil passageiros diariamente. A partir de sábado (22), a operação será assumida pela TrensRJ, empresa criada pela Nova Via Mobilidade, consórcio vencedor da recente licitação estadual.
Uma reportagem investigativa do O Globo percorreu os cinco ramais da malha ferroviária e identificou uma série de problemas que se agravaram ao longo dos anos. A presença do tráfico em estações, que em 1998 se restringia a locais como a estação Jacarezinho, no ramal Belford Roxo, agora afeta pelo menos 13 estações, muitas delas margeadas por comunidades controladas pelo crime organizado. A segurança pública é um desafio constante, com 26 partidas canceladas ou interrompidas em março de 2026 devido a incidentes relacionados à criminalidade.
Os trens antigos, apelidados de “caveirões” pelos usuários, fabricados entre as décadas de 1970 e 1980, ainda circulam, causando desconforto e insegurança. Atrasos frequentes, viagens demoradas, escadas rolantes quebradas, falta de limpeza e vandalismo, como pichações e marcas de apedrejamento em vidros, são queixas recorrentes dos passageiros. O ramal Deodoro, antes considerado um dos mais eficientes, sofreu com a redução da frota e aumento dos intervalos, impactando diretamente a rotina dos usuários.
Ramal Deodoro: Do “queridinho” à superlotação e intervalos longos
O ramal Deodoro, que já foi elogiado por composições novas e intervalos curtos, perdeu seu protagonismo. Suspenso durante a pandemia, o ramal retornou em 2024 com uma nova grade de horários, mas a realidade é distante do passado. Atualmente, opera com composições de apenas quatro vagões, em contraste com os oito vagões dos ramais Santa Cruz e Japeri. Os intervalos, que antes eram de 6 minutos, podem chegar a 20 minutos, gerando superlotação, especialmente nos horários de pico.
A frota no ramal Deodoro inclui trens fabricados em 2005, com sistemas de som antigos onde o maquinista anuncia as estações manualmente. A iluminação em alguns vagões é precária devido ao vandalismo. Nas estações, problemas como escadas rolantes inoperantes, como ocorreu no Méier nesta semana, e alagamentos em dias de chuva, em locais como Deodoro, agravam a experiência do usuário.
Central do Brasil e Ramal Santa Cruz: Caos, atrasos e insegurança
Na Central do Brasil, ponto nevrálgico do sistema, o cenário é de abandono. Lixo, caixas de papelão e pichações tomam conta das plataformas, dificultando a circulação e transmitindo uma sensação de descaso. Os trens sofrem com deterioração, para-brisas marcados por pedras e janelas riscadas. A sinalização de vagões femininos muitas vezes está desatualizada ou danificada.
Larissa Silva, recepcionista de 24 anos, relata a dificuldade em cumprir horários devido aos intervalos irregulares e à superlotação do ramal Santa Cruz. “O trem não dá vazão, demora a sair porque não consegue fechar a porta pela quantidade de gente”, afirma. A volta para casa também é um desafio, com longas esperas e a incerteza sobre qual composição partirá primeiro, gerando “correrias” e desconforto.
Ramal Japeri e Belford Roxo: Viagens mais longas e “caveirões” na linha
Usuários do ramal Japeri reclamam de composições cheias, longas viagens em pé e o fim das partidas extras de Queimados. A viagem de Japeri à Central do Brasil, que antes levava menos tempo, agora dura 97 minutos, 22 a mais do que em 1998. Maria José, diarista de 62 anos, conta que precisa acordar mais cedo para conseguir um lugar no trem.
No ramal Belford Roxo, trens antigos fabricados entre as décadas de 1970 e 1980, os “caveirões”, ainda são a realidade. Apesar de reformados e com ar-condicionado, são barulhentos e proporcionam uma experiência desconfortável, com assentos que trepidam e impulsionam os passageiros para o alto em determinados momentos. A viagem cruza áreas de comunidades sob influência do tráfico, como a favela da Mangueirinha e o Complexo de Israel.
O ramal Gramacho/Saracuruna também atravessa territórios controlados por facções criminosas como o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP). Embora não tenha havido registro de tiroteios durante a reportagem, a presença do crime organizado nas margens da via férrea é uma constante, adicionando uma camada extra de apreensão à rotina dos passageiros.
Fonte: O Globo
