O Fogo Como Arma de Destruição e Simbolismo no Feminicídio
O uso do fogo em crimes contra mulheres, especialmente no contexto de feminicídio, transcende a mera violência física. Especialistas apontam que essa modalidade de ataque carrega um forte simbolismo, visando não apenas a morte, mas também a desfiguração e o aniquilamento da identidade da vítima.
Casos recentes no Rio de Janeiro ilustram essa brutalidade. Fabrícia Dias, 30 anos, teve metade do corpo queimado após ter álcool derramado sobre ela por seu ex-companheiro. Apesar de ter sobrevivido, Fabrícia segue internada, aguardando cirurgias. O agressor, que não aceitou o fim do relacionamento de 11 anos, fugiu, mas se entregou à polícia e responderá por tentativa de feminicídio.
Outro caso trágico ocorreu em São Gonçalo, onde Ana Lúcia Alves, 64 anos, foi encontrada carbonizada após sua casa ser incendiada pelo companheiro. A Polícia Civil indiciou o suspeito por incêndio com resultado morte, crime com pena inferior ao feminicídio, o que gerou indignação nos familiares da vítima.
O Simbolismo do Fogo e a Tentativa de Apagar a Identidade
Segundo Silvana Mariano, socióloga e coordenadora do Levantamento do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), o fogo em feminicídios representa uma tentativa de eliminar os vestígios da mulher e, caso ela sobreviva, deixá-la profundamente desfigurada. “O feminicídio pelo fogo é a expressão extrema de um poder que busca o aniquilamento da identidade da mulher, é uma destruição objetiva e subjetiva”, explica.
A delegada Renata do Amaral associa o uso do fogo a sentimentos de posse e ciúme. “Normalmente, a gente percebe que o emprego do fogo é mais comum em situações de ciúme, quando o autor tem uma incapacidade de aceitar o fim de uma relação”, afirma. Ela ressalta que esses crimes são mais premeditados e revelam brutalidade e um desejo de prolongar o sofrimento da vítima.
Estatísticas e Casos Históricos de Violência com Fogo
O Dossiê Mulher do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ano-base 2024) indica que, entre os meios empregados em tentativas de feminicídio, “arma branca” foi o mais comum (21,2%), seguido por “asfixia, envenenamento ou material inflamável” (12,3%). Nos feminicídios consumados, “arma branca” lidera (38,3%), com “asfixia, envenenamento ou material inflamável” em segundo lugar (23,4%).
A residência continua sendo o local mais frequente para esses crimes, concentrando 64,5% dos feminicídios consumados e 65,4% das tentativas.
O feminicídio com fogo exige uma premeditação maior. Silvana Mariano destaca que, diferentemente de um ataque com as mãos, o uso do fogo demanda tempo para planejar o modo, o material e a proteção do agressor, indicando uma maior frieza e calculismo.
O Legado de Cicatrizes e Luta por Justiça
O caso de Rosângela Sá, em 2009, exemplifica a crueldade. Seu ex-marido ateou fogo em seu rosto com gasolina, queimando 65% de seu corpo. Rosângela sobreviveu após meses de internação e hoje atua em uma ONG, transformando suas cicatrizes em “marcas de vitória”. O agressor, que na época respondeu por duas tentativas de homicídio, cumpriu apenas um terço da pena.
Em 2019, Alessandra Vaz e Daniela Mousinho morreram após serem trancadas em um banheiro e terem a casa incendiada por Rodrigo Marotti, ex-namorado de Alessandra. Apesar de o julgamento ter sido por feminicídio, os jurados desclassificaram o crime para incêndio qualificado com resultado morte, gerando indignação. Marotti foi sentenciado a 19 anos e 4 meses de prisão e atualmente cumpre pena em regime semiaberto.
Esses casos evidenciam a necessidade de maior rigor na legislação e na aplicação das penas para crimes de violência contra a mulher, especialmente aqueles que utilizam o fogo como método de tortura e destruição.
Fonte: G1
