Deputados da Alerj Sob Investigação por Ligações com o Crime Organizado
A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) volta a ser palco de investigações sobre o envolvimento de seus integrantes com organizações criminosas. Nos últimos meses, o debate sobre a infiltração do crime organizado no poder político do estado ganhou força com operações que miram deputados com supostas ligações com facções como o Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e milícias.
Os casos mais recentes reacendem um alerta sobre a fragilidade de mecanismos de controle e a complexidade das relações entre o submundo do crime e a esfera pública. A atuação de agentes públicos em benefício de grupos criminosos, incluindo a intermediação de negócios ilícitos e o vazamento de informações sigilosas, tem sido o foco de apurações policiais e do Ministério Público.
A gravidade das denúncias, que envolvem desde o tráfico de armas e drogas até a proteção de interesses de facções, levanta questionamentos sobre a idoneidade dos representantes eleitos e a necessidade de um escrutínio mais rigoroso. As autoridades buscam desvendar a extensão dessa infiltração e garantir que o parlamento não seja um reduto para atividades criminosas.
O Caso TH Joias e o Comando Vermelho
Em setembro de 2025, a Operação Zargun da Polícia Federal (PF) resultou na prisão do então deputado estadual TH Joias. Segundo a PF, ele atuava como um operador político e financeiro para o Comando Vermelho, mantendo contato com traficantes, policiais e outros agentes públicos. A investigação apontou que Joias teria utilizado sua estrutura de mandato para favorecer a facção, intermediando negociações de armas, drogas e equipamentos antidrones destinados ao Complexo do Alemão.
A relação de TH Joias com o traficante Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, ia além de contatos esporádicos, envolvendo apoio político e operacional ao crime organizado. O ex-parlamentar também é suspeito de ter indicado a esposa do traficante para um cargo em seu gabinete e de planejar sua candidatura a vereador em Duque de Caxias.
Rodrigo Bacellar e o Vazamento de Informações
Poucos meses depois, em dezembro de 2025, o então presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, foi preso pela PF. Ele é acusado de vazar informações sigilosas da Operação Zargun para TH Joias, alertando-o sobre a ação policial e orientando a remoção de objetos de seu imóvel antes das buscas. Bacellar era a principal pessoa de contato na lista de “comunicação urgente” de TH Joias.
Na mesma operação, o desembargador federal Macário Ramos Júdice Neto também foi preso, sob suspeita de repassar informações sigilosas relacionadas à investigação antes do cumprimento dos mandados.
Val Ceasa e a Infiltração do Terceiro Comando Puro
Mais recentemente, em uma operação deflagrada na última quinta-feira, o deputado estadual Val Ceasa (PRD) tornou-se alvo de investigação por suposta ligação com o Terceiro Comando Puro (TCP). O Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) mapeou vínculos entre ex-assessores do parlamentar e integrantes da facção.
Um dos nomes identificados é Michael Johnny Vianna de Azevedo, indiciado em investigação sobre um homicídio encomendado por Bruno da Silva Loureiro, o Coronel, apontado como um dos chefes do TCP. A suposta aproximação de Val Ceasa com facções criminosas foi exposta em mensagens trocadas entre traficantes, onde ele é mencionado como “o contato dele”, demonstrando o interesse da facção em aliciar agentes políticos para ampliar sua influência e obter proteção institucional.
Val Ceasa e o ex-vereador Ulisses Marins são suspeitos de atuar para impedir a demolição de um resort de luxo atribuído a Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, um dos chefes do TCP. O procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, classificou o caso como “extremamente preocupante”, alertando para a influência de facções criminosas em espaços de representação política.
Lucinha e a Conexão com Milícias
Em 2023, a deputada Lucinha e sua assessora Ariane Afonso Lima foram denunciadas pelo MPRJ por integrar o núcleo político da maior milícia do Rio, comandada por Luis Antonio da Silva Braga, o Zinho. A deputada, que responde como réu por envolvimento com a milícia, sempre negou as acusações.
A PF encontrou indícios da participação ativa da deputada e de sua assessora na organização criminosa, especialmente na articulação política junto a órgãos públicos para atender aos interesses do grupo miliciano. Foram registradas ao menos 17 reuniões entre Lucinha, Ariane e integrantes da milícia de Zinho, alguns encontros ocorridos na própria Alerj, com foco na Zona Oeste do Rio, reduto eleitoral da deputada e área de controle da milícia.
Fonte: G1
