Turismo em Favelas: O Fascínio das Vistas Aéreas e a Controvérsia Gerada
Vídeos gravados com drones em comunidades do Rio de Janeiro, como a Rocinha, têm conquistado as redes sociais e atraído um número crescente de turistas. As imagens, que oferecem vistas panorâmicas das encostas e do cotidiano local, ganham destaque em um período de recorde de visitantes na cidade.
A popularidade dessas gravações é tamanha que alguns turistas chegam a esperar horas para ter seu momento de destaque, pagando valores consideráveis. No entanto, o fenômeno também levanta debates importantes sobre a maneira como a realidade das favelas é apresentada, com críticas sobre uma possível romantização da pobreza e da criminalidade.
Empresas de turismo que atuam nessas comunidades defendem que o objetivo é justamente combater preconceitos e mostrar o lado positivo e vibrante da vida nas favelas, indo além da imagem frequentemente associada à violência. A iniciativa busca oferecer uma experiência cultural imersiva, conectando visitantes com moradores e artistas locais.
O Lado Positivo da Favela: Uma Nova Perspectiva Turística
Renan Monteiro, fundador da Na Favela Turismo, explica que o foco é desmistificar a visão negativa que muitas pessoas têm das favelas. “A gente quer mudar ali o preconceito que existe na cabeça das pessoas”, afirma. Os tours organizados incluem passeios por becos, visitas a ateliês de artistas e apresentações culturais, como a capoeira, permitindo que os turistas vivenciem o dia a dia da comunidade de forma respeitosa.
Gabriel Pai, um turista costa-riquenho, descreve sua experiência como “encantadora”, ressaltando que a Rocinha é vista por muitos como perigosa, mas que ele encontrou um ambiente acolhedor. Influenciadores digitais, como Ingrid Ohara, também têm aproveitado a tendência para produzir conteúdo, divulgando o Rio de Janeiro e sua cultura para milhões de seguidores.
Segurança e Oportunidade: O Turismo Como Ferramenta de Desenvolvimento
Monteiro, que cresceu na Rocinha, relembra tempos passados onde o turismo em favelas era menos organizado e mais arriscado. Após um incidente trágico em 2017, onde uma turista foi morta, a necessidade de um turismo seguro se tornou ainda mais evidente. Ele e líderes comunitários desenvolveram rotas e um aplicativo para garantir a segurança dos visitantes, com comunicação direta para cancelar passeios em caso de operações policiais.
O projeto não só oferece uma nova forma de conhecer a cidade, mas também gera oportunidades de emprego e renda para os moradores. A empresa já formou 300 guias locais e dez pilotos de drone. Pedro Lucas, um jovem piloto de 19 anos, destaca como o trabalho “mudou” sua vida, proporcionando “um dinheiro bacana” e a esperança de que mais jovens da comunidade possam ter acesso a essas oportunidades.
Um Contraste Exótico ou Uma Realidade Complexa?
O turismo no Rio de Janeiro atingiu picos históricos, com quase 290 mil visitantes internacionais em janeiro. Na Rocinha e no Vidigal, o turismo organizado registrou 41 mil visitantes em fevereiro, impulsionado pela febre dos vídeos com drone. Moradores como Claudiane Pereira dos Santos celebram o fluxo turístico, afirmando que a favela tem “muita gente boa” e trabalhadores.
Cecilia Oliveira, do Instituto Fogo Cruzado, reconhece o potencial de renda para os moradores, mas alerta para os perigos. “O problema é quando a favela deixa de ser um bairro vivo, complexo e atravessado por desigualdades estruturais para virar apenas contraste exótico ou pano de fundo para conteúdo impactante”, lamenta. A discussão se mantém sobre como equilibrar a promoção turística com a representação autêntica e respeitosa da vida nas comunidades.
Fonte: AFP
