Tráfico e Milícias no Rio: Monopólio de Produtos Essenciais Impõe Nova Forma de Controle Econômico

Tráfico e Milícias no Rio: Monopólio de Produtos Essenciais Impõe Nova Forma de Controle Econômico

Do Ovo ao Tijolo: Como o Crime Organizado Sequestra a Economia do Rio A atuação do crime organizado no Rio de Janeiro transcendeu o tráfico de drogas e a exploração de serviços clandestinos. Agora, facções e milícias impõem um controle territorial sobre a distribuição e comercialização de produtos essenciais, como alimentos, itens de limpeza e […]

Resumo

Do Ovo ao Tijolo: Como o Crime Organizado Sequestra a Economia do Rio

A atuação do crime organizado no Rio de Janeiro transcendeu o tráfico de drogas e a exploração de serviços clandestinos. Agora, facções e milícias impõem um controle territorial sobre a distribuição e comercialização de produtos essenciais, como alimentos, itens de limpeza e materiais de construção. Essa nova frente de atuação, que força comerciantes a comprar de fornecedores indicados e estabelece preços, configura um monopólio que sufoca a concorrência e distorce o mercado.

Especialistas alertam que essa prática, já consolidada em diversas áreas da Região Metropolitana, pode comprometer o desenvolvimento econômico do estado a longo prazo. A imposição de fornecedores e preços pelo crime afasta empresas formais e gera um prejuízo estimado em R$ 21,4 bilhões por ano para a economia fluminense, segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

A “terceira onda” do crime organizado, como define o promotor Fábio Corrêa, do Ministério Público do Rio, avança sobre setores da economia formal, abrindo próprios negócios ou controlando o fornecimento de matérias-primas e produtos essenciais. Essa dinâmica, que já afeta desde a venda de ovos até a de tijolos, impõe preços mais altos e menor qualidade para o consumidor final, enquanto gera um ambiente hostil para empresas legalizadas.

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O Preço da Violência no Cotidiano

Em bairros como Duque de Caxias, a pressão do tráfico obrigou supermercados a deixar de vender ovos e a aumentar o preço do pão em até 200%, após a imposição de fornecedores de farinha. A funcionária de um estabelecimento, que pediu para não ser identificada, relatou que a cartela de ovos, antes vendida entre R$ 8,99 e R$ 10,50, passou a ser oferecida por R$ 14 pelos criminosos. “O produto não conseguia mais se pagar. Era comprar para estragar”, desabafou.

Impacto Econômico e Produtividade Comprometida

Daniel Cerqueira, economista do Ipea, explica que a apropriação do mercado pelo crime organizado faz com que as empresas deixem de operar pela lógica da eficiência e competitividade. Em vez de buscar o lucro através da melhoria contínua, elas passam a operar “puxando a produtividade da economia para baixo”, o que, a longo prazo, reduz a capacidade de crescimento sustentável do estado. A insegurança e a extorsão criam um ambiente hostil, levando empresas legais a se retirarem das áreas dominadas pelo crime, resultando em perda de empregos e aumento da informalidade.

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A “Taxa da Farinha” e o Assassinato de um Padeiro

O caso de Rafael da Silva Braga, proprietário de uma padaria em Paciência, Zona Oeste do Rio, ilustra a brutalidade desse controle. Assassinado após se recusar a aderir à “taxa da farinha”, que não só impunha o fornecedor como determinava o preço de venda do pão, Braga já pagava a “taxa de segurança”. Investigações da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais (Draco) identificaram empresas ligadas ao crime organizado que monopolizavam a distribuição de trigo na região, chegando a roubar cargas de fornecedores não autorizados para manter o controle.

Monopólio de Gás, Água e Energia

O controle sobre a venda de botijões de gás e água mineral é uma prática antiga, que continua sendo importante fonte de renda para as organizações criminosas. Nas comunidades, o preço do botijão pode chegar a R$ 170, valor significativamente superior ao preço subsidiado pelo programa Gás do Povo. Além disso, o crime organizado também se apropria do fornecimento de energia, com a Light estimando perdas anuais de R$ 1,3 bilhão em decorrência de roubos de energia, muitos atribuídos à atuação direta de grupos criminosos. A concessionária tem investido em “blindagem da rede” para dificultar furtos e adulterações.

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Expansão para Materiais de Construção e Outros Setores

O avanço do crime organizado também se manifesta na venda de tijolos e areia para lojas de materiais de construção em municípios da Baixada Fluminense, como Queimados, Nova Iguaçu e Itaguaí. Comerciantes são obrigados a adquirir produtos de fornecedores indicados por paramilitares. Há suspeitas de extorsão a proprietários de usinas de energia solar, com exigência de contratação de empresas de manutenção vinculadas às quadrilhas. Moradores relatam a coação para adquirir produtos de empresas ligadas à milícia, vivendo sob a restrição do direito de ir e vir e da liberdade de expressão.

Fonte: G1

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