Mistério nas Ruas do Rio: Inscrições em Persa Antigo, Latim e Chinês Aguçam a Curiosidade Carioca

Mistério nas Ruas do Rio: Inscrições em Persa Antigo, Latim e Chinês Aguçam a Curiosidade Carioca

O Rio de Janeiro como um livro aberto: decifrando os segredos nas fachadas O espaço urbano é um constante diálogo, e o Rio de Janeiro ostenta em suas ruas e edifícios mensagens que atravessam séculos e culturas. Inscrições em línguas antigas e esquecidas, como o persa antigo, o latim e até o chinês, transformam a […]

Resumo

O Rio de Janeiro como um livro aberto: decifrando os segredos nas fachadas

O espaço urbano é um constante diálogo, e o Rio de Janeiro ostenta em suas ruas e edifícios mensagens que atravessam séculos e culturas. Inscrições em línguas antigas e esquecidas, como o persa antigo, o latim e até o chinês, transformam a paisagem carioca em um enigma a ser desvendado por poucos iniciados. Essas escritas, muitas vezes ignoradas ou incompreendidas pela maioria, guardam histórias fascinantes e conexões culturais inesperadas.

Recentemente, uma inscrição em persa antigo no Salão Assyrio do Theatro Municipal, datada de 1909, finalmente teve seu significado revelado após mais de um século. A descoberta, fruto do interesse de dois pesquisadores, lança luz sobre a riqueza e a complexidade das mensagens que o tempo deixou gravadas na cidade.

Essa intrigante comunicação silenciosa se estende por diversos pontos do Rio, convidando à reflexão sobre o passado e a identidade da cidade. Da grandiosidade do Theatro Municipal à simplicidade de uma praça, as inscrições em línguas estrangeiras se tornam portais para outras épocas e civilizações, desafiando a curiosidade e o conhecimento dos transeuntes.

Persa Antigo: Um Enigma Desvendado no Theatro Municipal

A jornada para desvendar a inscrição em persa antigo no Salão Assyrio do Theatro Municipal começou com uma visita guiada. Alex Mazzanti Junior, professor de Latim, reconheceu o sistema cuneiforme e suspeitou tratar-se de persa antigo. Sem registros no teatro, o enigma foi levado a Matheus Treuk, professor de Arqueologia da Uerj. Após meses de estudo, a dupla publicou em abril a tradução: “Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario”.

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Matheus Treuk explica que a inscrição não é uma cópia literal de um texto antigo, mas sim uma composição baseada em elementos conhecidos da escrita persa antiga, possivelmente criada para a decoração do local. “O que parece ter acontecido é que os responsáveis pela decoração compuseram um novo texto a partir de elementos conhecidos da escrita persa antiga”, esclarece.

A repercussão da descoberta surpreendeu os pesquisadores, que atribuem o interesse ao caráter exótico do tema, à beleza do painel e à importância histórica do Theatro Municipal. “Para mim e para o Matheus, o mais importante é aproveitar esse momento de repercussão para fazer divulgação científica. É uma oportunidade de mostrar um pouco do trabalho que produzimos na universidade pública e aproximar esse conhecimento da sociedade”, afirma Alex Mazzanti Junior.

Outras Testemunhas do Persa Antigo no Rio

O Rio de Janeiro abriga mais exemplos de inscrições em persa antigo. Na Praça Pedro II, em São Cristóvão, a base da Coluna de Persépolis, um presente do Irã em 2012, exibe uma inscrição em cuneiforme. Diferentemente da inscrição do Theatro Municipal, esta conta com versões em português e inglês, além de uma transcrição em persa moderno.

“Essa é uma cópia fidedigna do texto que está na tumba do rei Dario I, esculpida na pedra. É um dos textos mais complexos que existem em persa antigo”, detalha Treuk, ressaltando a importância histórica do monumento.

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Latim nas Ruas: Da Fábrica de Gás à História do Poder

O latim é outra língua presente em diversas inscrições pela cidade. Na Avenida Presidente Vargas, a fachada da antiga fábrica de gás ostenta a frase “Ex Fumo Dare Lucem”, que significa “a luz a partir da fumaça”. A citação, retirada da obra “Arte Poética” de Horácio, simboliza a transformação trazida pela modernização da iluminação pública do Rio em 1853.

Danilo Julião, autor de uma dissertação sobre inscrições latinas no Rio, explica que a frase representa uma metáfora do processo de mudança na iluminação da cidade. “Ela representa justamente uma metáfora desse processo de mudança na iluminação da cidade na época”, comenta. Apesar da importância histórica, o prédio da antiga fábrica de gás, hoje sob responsabilidade da Naturgy, apresenta sinais de abandono, com a letra “M” de “Fumo” ameaçando cair.

Julião destaca que inscrições em latim em monumentos como chafarizes e instalações militares funcionam como documentos históricos. “Essas inscrições se comportam como um documento diferente dos que estamos acostumados a pesquisar, que são aqueles em papel. Ajudam a contar a história da cidade de outra maneira, lançando luz sobre determinados eventos, pessoas, esforços urbanísticos e mudanças que talvez os livros de história não contemplem”, reflete.

Paulo Knauss, vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, aponta que as inscrições mais antigas em latim no Rio de Janeiro frequentemente se localizam em centros de poder, como edifícios religiosos, militares e de governo. A provável inscrição mais antiga da cidade seria a da lápide tumular de Estácio de Sá, datada de 1583.

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A Ponte dos Jesuítas, em Santa Cruz, com data de 1752, também exibe versos em latim. A frase “Flecte genua tanto sub / Nomine flecte/ Viato hic etiam reflua flectitur / Amnis acqua” convida o viajante a “dobrar o joelho sob tão grande nome”, com uma alusão à natureza que se curva.

Outras Línguas e Mensagens no Rio

Na divisa entre Tijuca e Praça da Bandeira, a Associação Cultural Chinesa do Rio exibe ideogramas em sua fachada, que identificam a entidade como “Associação Chinesa de Amizade do Rio”. No Centro, o Grande Templo Israelita do Rio apresenta os Dez Mandamentos em hebraico em um mosaico colorido.

Na Escadaria Selarón, na Lapa, azulejos com a inscrição em árabe “Alá é vitorioso” geraram um pedido de mudança de local em 2022, com uma peça quebrada sob guarda da Secretaria municipal de Conservação, sem previsão de restauração.

No Cemitário São João Batista, em Botafogo, o latim “Revertere ad locum tuum” (“retorne ao seu lugar”) saúda os visitantes no pórtico. Curiosamente, acima desta mensagem solene, uma inscrição efêmera em português, feita com tinta aerossol, decreta com bom humor: “Quem é vivo sempre aparece”.

Fonte: O Globo

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