Aumento da População em Situação de Rua no Rio de Janeiro e no Brasil
As ruas do Rio de Janeiro se tornaram palco de apelos e desespero, com frases como “Tia, me dá um dinheiro aí?” e “Paga uma quentinha, moça?” ecoando na rotina. Esses pedidos refletem a dura realidade de milhares de pessoas que encontram nas calçadas e marquises seu único refúgio. O estado do Rio de Janeiro registra 35.815 pessoas em situação de rua, sendo 8.195 na capital, números que especialistas apontam como subnotificados.
Desde a pandemia de Covid-19, o contingente cresceu drasticamente, impulsionado pelo desemprego e pela perda de moradia. Esse aumento gerou um crescimento proporcional do medo e da tensão social, com relatos de conflitos cotidianos se multiplicando em diversas zonas da cidade. A presença de mulheres nessa situação, que antes era rara, hoje é uma realidade preocupante, totalizando 5.730 segundo a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos.
Dados do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da UFMG, de maio de 2025, revelam que o Brasil contabiliza mais de 345 mil pessoas em situação de rua, um aumento de 5,37% em relação a 2024. São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais lideram essa triste estatística.
Programas de Acolhimento e Assistência Social no Rio
Diante desse cenário, a capital fluminense, que concentra 70% da população de rua do estado, tem buscado soluções. O governo estadual criou programas como o Hotel Acolhedor, iniciado em 2021, que oferece pernoite, alimentação e apoio psicossocial a pessoas em situação de rua. A iniciativa já realizou mais de 300 mil pernoites e tem auxiliado na emissão de documentos, reinserção profissional e retorno aos estudos, com 70% dos atendidos encaminhados para serviços ou o mercado de trabalho.
Abordagens Sociais e a Complexidade da Recusa ao Abrigo
A Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) do Rio realiza abordagens frequentes para identificar necessidades e oferecer acolhimento institucional. No Catete, por exemplo, foram realizados 2.315 atendimentos entre janeiro e junho de 2026, resultando em 142 acolhimentos. No entanto, a SMAS ressalta que o acolhimento é voluntário e depende da aceitação da pessoa.
Profissionais da área explicam que a recusa aos abrigos, muitas vezes, está ligada a regras restritivas, rompimento de vínculos familiares e sociais, e ao uso de substâncias. Para alguns, a rua pode se tornar um refúgio diante de violências domésticas ou da busca por autonomia e liberdade, como aponta Cris Ribeiro, assistente social. “A recusa ao abrigo é compreendida como um fenômeno complexo, relacionado às trajetórias de vida, às experiências com os serviços e às condições de vulnerabilidade”, pontua.
A Importância do Cuidado Humanizado e Individualizado
Psicólogas como Sarah Karounis e Claudia Melo enfatizam que o acolhimento deve ser respeitoso, individualizado e livre de julgamentos. A perda de confiança em relações, traumas e a falta de atendimento às necessidades específicas podem levar à recusa dos abrigos. “O vínculo é o principal fator para qualquer mudança. Muitas pessoas recusam o abrigo porque perderam a confiança nas relações, ou porque as regras desses espaços não contemplam suas necessidades”, afirma Melo.
A construção de confiança e a oferta de um cuidado humanizado são essenciais para aumentar as chances de aceitação do tratamento e do acolhimento, promovendo a autonomia e a possibilidade de recomeços. A rua, para alguns, pode se tornar um ambiente familiar, mesmo sendo inseguro, e a sensação de liberdade pode pesar na decisão.
Histórias de Superação e o Papel do Acolhimento Eficaz
Mariana Lyra, mulher trans que vive há mais de um ano no Hotel Acolhedor, é um exemplo de que o acolhimento pode ser um portal para a mudança. Ela cursa duas faculdades e conta com o apoio de uma advogada para estudar e trabalhar. “O Hotel Acolhedor me deu a oportunidade de não dormir mais na rua. Sendo mulher trans, a violência que a gente sofre na rua é muito grande”, relata Mariana, destacando o respeito e o tratamento digno que recebeu na instituição.
O Hotel Acolhedor oferece atividades culturais, apoio na elaboração de currículos, encaminhamento para serviços de saúde e contato com familiares, promovendo um senso de pertencimento e inclusão. Mariana ressalta que “quem segue as regras do hotel, tudo dá certo. As regras não são absurdas. Eles pesquisam vagas de trabalho e também de estudo”.
Desafios e Iniciativas de Apoio
O ativista carioca Heitor Werneck, que hoje atua em São Paulo, recolhe doações e realiza ações como o Café da Manhã Comunitário para distribuir itens de higiene, alimentos e roupas para pessoas em situação de rua. Ele também destaca a preocupação com o aumento de mulheres nas ruas, que pode refletir o crescimento da violência doméstica e familiar, e as dificuldades específicas que enfrentam, como o acesso à higiene íntima.
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) aponta que conflitos familiares (40% a 47%), desemprego e perda de moradia (40%), e o uso abusivo de álcool e drogas (cerca de 30%) são os principais fatores que levam à situação de rua. As substâncias mais consumidas incluem álcool, crack, maconha e tabaco, muitas vezes usadas como mecanismo de fuga e sobrevivência.
Serviços Oferecidos pela Prefeitura do Rio
A Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS) do Rio conta com 73 equipamentos para acolhimento institucional. As equipes de abordagem social atuam 24 horas para identificar e encaminhar pessoas em vulnerabilidade. Para quem busca acolhimento diretamente, existem o CREAS e o Centro Pop. A SMAS oferece:
- Abordagem social especializada com escuta ativa e identificação de necessidades.
- Atendimento em unidades especializadas com oferta de higiene e encaminhamento a serviços socioassistenciais.
- Acolhimento institucional em albergues e Unidades de Reinserção Social (URS) para necessidades básicas e pernoite.
- Garantia da cidadania com orientação para emissão de documentos e inclusão no Cadastro Único.
- Encaminhamento a serviços de saúde e auxílio jurídico.
- Apoio para inserção no mercado de trabalho, incluindo capacitação e confecção de currículos.
- Atividades culturais como oficinas criativas, saraus e visitas a locais históricos.
Fonte: G1
