A decomposição do Estado e a violência como pilar econômico
A crise política no Rio de Janeiro, que culminou com um desembargador assumindo o governo interinamente após a renúncia de Cláudio Castro em meio a acusações de desvio de verbas e a prisão do presidente da Assembleia Legislativa por suspeitas de ligações com o crime organizado, expõe a profunda decomposição do sistema político fluminense. Décadas de governos que trataram o Estado como patrimônio privado e se aliaram a territórios controlados pelo crime culminaram em uma simbiose perigosa entre política e crime organizado.
Essa articulação, longe de ser uma anomalia, parece ser um pilar funcional para a reprodução do capital local, sustentando uma exploração sistemática e intensiva da população. A violência, nesse contexto, não é um problema a ser resolvido pela segurança pública, mas um mecanismo de dominação.
Este cenário, marcado pela conivência e pelo avanço das milícias e do tráfico, cria um ambiente propício para a superexploração, onde a população fluminense é submetida a condições de trabalho precárias e a custos de vida exorbitantes, com serviços públicos sucateados e a ausência do Estado em áreas cruciais. Conforme informação divulgada pelo portal G1.
O Poder que Não Precisa se Esconder: Crime Organizado e Estado em Simbiose
Por anos, a narrativa oficial tratou o crime organizado como um problema de segurança pública a ser combatido com mais policiamento. Contudo, a realidade é que o crime no Rio de Janeiro se tornou parte integrante do Estado. As milícias, surgidas nos anos 2000 a partir de agentes de segurança, hoje controlam mais território na cidade do que facções do tráfico, dominando mais da metade da área geográfica da capital.
Esse controle territorial se traduz em monopólio econômico sobre serviços básicos como gás, transporte e construção civil irregular, transformando necessidades cotidianas em fontes de extorsão. A população em áreas de milícia não tem escolha de fornecedores, e a concorrência é eliminada.
O tráfico, por sua vez, adaptou-se ao modelo miliciano, diversificando suas atividades e replicando as formas de extorsão. A articulação entre o Estado e os grupos criminosos se dá através da troca de “mercadorias políticas”: proteção, omissão, alvarás, contratos e impunidade. Essa dinâmica explica por que a aliança entre crime e Estado não é uma disfunção, mas o próprio modo de funcionamento histórico do poder local.
A Espoliação como Sistema: Múltiplas Camadas de Exploração
O trabalhador fluminense é explorado em todas as esferas de sua vida. No mercado de trabalho, 52,5% dos trabalhadores estão na informalidade, sem carteira assinada, previdência ou proteção social. Soma-se a isso uma economia desindustrializada e dependente de serviços de baixo valor agregado.
Fora do mercado formal, nas comunidades dominadas pelo crime, o trabalhador paga preços extorsivos por serviços essenciais. A superexploração se intensifica pela coerção do controle territorial armado, que torna a exploração praticamente sem alternativa.
Um entregador ou diarista em área dominada pelo crime enfrenta, simultaneamente, a exploração do trabalho (jornadas exaustivas, remuneração por produção), os custos inflacionados de uma metrópole cara, os preços impostos pelo controle territorial (gás, internet, moradia) e a ausência do Estado em serviços básicos como creches e postos de saúde. Essa sobreposição de camadas de extração de valor torna a vida extremamente precária.
Necropolítica e o Controle do Território: A Violência como Ferramenta de Dominação
A reprodução dessa situação sem uma rebelião à altura se explica pela violência como instrumento central de dominação. A necropolítica, conceito de Achille Mbembe, descreve um regime onde o poder se exerce sobre corpos que podem ser mortos sem que isso constitua crime para a ordem vigente. No Rio, a morte de jovens negros em operações policiais é frequentemente naturalizada.
A necropolítica opera através de um “estado de exceção” permanente em territórios como as favelas cariocas, onde a suspensão localizada do direito se torna regra. A ameaça constante de morte, seja pelo toque de recolher imposto pelo tráfico, pela presença de homens armados ou por operações policiais, cria um estado de terror cotidiano que destrói as bases da organização coletiva.
A superexploração no Rio de Janeiro é mantida não apenas por salários baixos e custos altos, mas pela eliminação física de quem ousa resistir. O controle territorial do crime, articulado com a violência estatal, cria um regime de contenção que destrói as condições para a contestação da exploração, tornando-a estável.
O Estado Capturado e a Urgência de um Novo Horizonte
A crise política que levou a um desembargador ao Palácio Guanabara expôs a captura do Estado fluminense. Por um lado, pelos interesses do capital financeiro e grandes contratantes que drenam recursos públicos. Por outro, pelas redes criminosas que controlam o território e recebem em troca a não interferência do poder público e acesso a contratos.
O sucateamento dos serviços públicos é um elemento decisivo de espoliação da classe trabalhadora, que não recebe em serviços o que lhe é de direito. O orçamento público é desviado por essa articulação criminosa, resultando em acumulação privada sobre o fundo público.
Desmantelar o crime organizado no Rio de Janeiro é, portanto, uma questão estratégica para a libertação do povo fluminense. Sem o fim do controle territorial por milícias e tráfico, a superexploração está garantida, pois a população vive sob extorsão permanente e com a ameaça da morte para quem reage. A construção de uma alternativa política que enfrente essa realidade é urgente, apesar das dificuldades de organização popular e da forte correlação de forças desfavorável.
A violência, enquanto funcional à reprodução do capital no Rio de Janeiro, compromete não apenas a segurança pública, mas a própria possibilidade de uma existência digna para a maioria da população. É fundamental avançar politicamente, socialmente e organizacionalmente para construir um novo horizonte.
Fonte: G1
