Plano de Barcas para a Barra Enfrenta Obstáculos Milionários
Um ambicioso plano da Prefeitura do Rio para implementar linhas de barcas nas lagoas da Barra da Tijuca, visando oferecer uma nova opção de transporte aos moradores da Zona Sudoeste, encontra-se em um impasse financeiro e logístico significativo. O contrato inicial, que previa um aporte de R$ 101,6 milhões pelo Consórcio Lagunar Marítimo para embarcações e infraestrutura, agora se depara com a necessidade de um investimento adicional de, no mínimo, R$ 300 milhões.
Este valor extra é essencial para a remoção de obstáculos não previstos no edital original, como pontes baixas na Avenida Ayrton Senna, a realocação de uma ciclovia, desapropriações de imóveis e uma custosa dragagem dos canais. Um estudo apresentado pela concessionária detalha esses passivos, que incluem a elevação de pontes para permitir a passagem de barcos, a necessidade de mover uma ciclovia, realocar 23 residências e desapropriar um posto de gasolina. Apenas a dragagem para garantir a navegabilidade está orçada em mais de R$ 200 milhões.
O projeto, idealizado para transportar entre 85 mil e 90 mil passageiros diariamente, conectando shoppings, condomínios, terminais de ônibus e o metrô (Estação Jardim Oceânico), prometia uma alternativa mais rápida aos congestionamentos da região. Uma viagem entre a Cidade de Deus e o Jardim Oceânico, que de carro pode levar mais de uma hora, poderia ser realizada em apenas 20 minutos por barco. Contudo, o documento com as novas demandas foi entregue à Companhia Carioca de Parcerias e Concessões (CCPAR) no início do ano para análise.
Desafios Estruturais e Ambientais Aumentam Custos
O relatório da concessionária detalha os entraves, incluindo a necessidade de elevar pontes na Avenida Ayrton Senna, como a Plácido de Castro, que impedem a passagem de embarcações. Além disso, a realocação de uma ciclovia e de 23 residências em Rio das Pedras e Gardênia Azul, bem como a desapropriação de um posto de gasolina no Jardim Oceânico, somam-se aos custos. A dragagem de 5,6 milhões de metros cúbicos de sedimentos, crucial para criar canais navegáveis, representa o maior aporte extra, estimado em R$ 220 milhões, e não pode ser compartilhado com a concessionária de saneamento.
A Prefeitura do Rio, em nota, informou que o projeto “encontra-se na fase de estudos iniciais, conforme previsto em contrato”. No entanto, a concessionária já manifestou preocupação com a demora na avaliação dos “passivos ambientais” e considera que isso poderia ser motivo para rescisão contratual. Apesar disso, o presidente do Consórcio Lagunar Marítimo, Nelson Florentino da Silva Filho, reafirmou o compromisso com a população e o desejo de implantar o serviço.
Integração e Viabilidade Econômica em Discussão
O contrato de concessão prevê a implantação de cinco terminais, seis estações e oito linhas até 2028, com serviços opcionais como balsas para a Ilha da Gigoia e linhas expressas. A empresa tem autonomia para definir roteiros, mas um plano para antecipar operações com um serviço experimental na Lagoa de Marapendi não avançou devido a obstáculos, como a ocupação do terreno previsto para um terminal pelo posto de gasolina.
Enquanto o impasse financeiro é discutido, a empresa já avançou na escolha do escritório de arquitetura para o desenvolvimento das estações. A integração com o sistema de transporte público existente, como o metrô e o bilhete único, está prevista, com tarifas estimadas em R$ 5, o mesmo valor dos ônibus. No entanto, especialistas levantam dúvidas sobre a viabilidade econômica, argumentando que o custo da passagem pode não ser competitivo em comparação com carros de aplicativo, especialmente considerando a integração com o metrô, que custa R$ 7,90.
O projeto, anunciado em 2023, já enfrentou dificuldades anteriores, como a falta de interessados em uma primeira licitação com prazo de 12 anos. O edital republicado em 2024, com prazo de 25 anos, atraiu apenas o Consórcio Lagunar Marítimo. A assinatura do contrato ocorreu em outubro de 2025, após problemas burocráticos. Outro projeto similar, ligando os aeroportos Santos Dumont e Tom Jobim, foi arquivado por falta de interessados.
Fonte: O Globo
