Rio de Janeiro: Ciclistas em Vias Rápidas e com Poucas Ciclovias, Mapa Revela Regiões Mais Perigosas
A cidade do Rio de Janeiro apresenta um cenário preocupante para ciclistas, usuários de bicicletas elétricas, patinetes e ciclomotores. Um levantamento inédito realizado pelo g1, com base em dados oficiais da Prefeitura, revelou que a maioria das principais vias da cidade combina alta velocidade de circulação com a ausência de infraestrutura cicloviária adequada, expondo esses usuários a condições de alto risco.
O estudo analisou 105 vias importantes em todas as regiões da cidade, cruzando informações sobre limite de velocidade, presença de ciclovias, ciclofaixas e faixas compartilhadas. O resultado é um mapa que classifica o nível de segurança de cada rua, com 43 delas sendo consideradas de “segurança crítica” para quem se desloca sobre duas rodas ou meios similares.
A análise ganha ainda mais relevância com o recente decreto municipal que regulamenta a circulação desses modais. Embora o objetivo seja aumentar a segurança, especialistas alertam que a nova legislação pode, na prática, empurrar usuários para vias mais rápidas e perigosas, ao reclassificar parte dos autopropelidos como ciclomotores e proibir sua circulação em ciclovias, reduzindo as opções de trajetos seguros.
Principais Achados do Levantamento: Um Cenário de Risco
Dos 105 logradouros avaliados, a classificação de “segurança crítica” foi atribuída a 43 vias, enquanto 24 foram consideradas de “baixa segurança”. Apenas 3 vias alcançaram o status de “alta segurança”. Um dado alarmante é que 67 ruas não possuem qualquer tipo de infraestrutura cicloviária, e apenas 11 contam com ciclovia.
A metodologia do levantamento priorizou ruas com maior fluxo e papel estrutural na ligação entre bairros. Vias com velocidade elevada e sem proteção foram enquadradas como de ‘segurança crítica’, um perfil predominante nas principais ligações urbanas da cidade. Ruas com limite de até 40 km/h e sem ciclovias foram classificadas como de ‘baixa segurança’.
O padrão é consistente: as vias mais importantes, que concentram maior fluxo de veículos e conectam regiões, são as mais perigosas para os ciclistas. Um exemplo é a Rua Conde de Bonfim, na Tijuca, onde uma mulher e seu filho morreram atropelados por um ônibus em março. A via, com limite de 50 km/h, não possui infraestrutura cicloviária, um fator que aumenta significativamente o risco de acidentes graves, segundo especialistas.
Zonas Norte e Oeste: Infraestrutura Insuficiente e Demandas Ignoradas
A Zona Norte concentra alguns dos piores indicadores. Em bairros como Benfica, Engenho da Rainha e Méier, praticamente todas as vias analisadas carecem de infraestrutura cicloviária. Das 15 ruas avaliadas na região, 8 foram classificadas como de segurança crítica.
Na Zona Oeste, o cenário também é de desigualdade. Enquanto a Barra da Tijuca possui algumas vias com infraestrutura, bairros como Campo Grande e Bangu apresentam um quadro predominantemente crítico. Vias longas, com poucas alternativas e alta dependência da bicicleta para deslocamentos cotidianos reforçam o conceito de “demanda reprimida”, onde a população utiliza a bicicleta sem as devidas condições de segurança.
Um estudo da União de Ciclistas do Brasil (UCB), com base em dados do Strava, corrobora essa realidade: 80% dos trechos mais utilizados por ciclistas no Rio não têm ciclovia. Apesar disso, 44% dos quilômetros percorridos são feitos em vias com infraestrutura, indicando que os ciclistas priorizam rotas mais seguras quando disponíveis.
Decreto Municipal e a Urgência por Gestão de Velocidade
Especialistas apontam que o novo decreto municipal, ao restringir a circulação de bicicletas elétricas e ciclomotores sem garantir rotas seguras, pode reduzir a mobilidade e aumentar a exposição ao risco. A professora Marina Baltar, da Coppe/UFRJ, destaca a necessidade de uma gestão de velocidade das vias.
“Nossa preocupação é muito clara quanto à velocidade. Estudos mostram que acima de 50 km/h é letal para ciclistas”, afirma Vivi Zampieri, gestora de Mobilidade Ativa da Comissão de Segurança no Ciclismo do Rio. Luiz Saldanha, diretor da Aliança Bike, reforça a urgência em reduzir limites de velocidade em muitas vias, o que não impactaria significativamente o tempo das viagens.
A prefeitura anunciou um plano de expansão da malha cicloviária, com previsão de 50 km de novas vias até 2028, incluindo trechos em corredores importantes. No entanto, especialistas consideram a medida necessária, mas insuficiente diante do cenário atual e da falta de escuta ativa aos usuários.
Fonte: G1
