Cortes Orçamentários e Metas Reduzidas Comprometem Inteligência Policial no RJ
O Rio de Janeiro tem visto uma diminuição preocupante nos investimentos e na execução de projetos voltados para a área de Informação e Inteligência na segurança pública desde 2024. A verba destinada a essa subfunção orçamentária, crucial para o combate ao crime organizado, foi drasticamente reduzida, impactando diretamente a capacidade de atuação das forças policiais.
Projetos como a implantação de um centro tecnológico de inteligência foram excluídos do planejamento, e a criação de agências de inteligência em delegacias foi adiada. Além disso, a meta de capacitação de policiais na área foi severamente cortada, levantando questionamentos sobre a estratégia de segurança do estado. Essas informações, divulgadas em relatórios recentes, contrastam com a crescente complexidade do cenário criminal no estado.
Especialistas apontam que a falta de um trabalho de inteligência integrado e preciso pode ser um dos fatores que permitem a fuga de líderes criminosos, mesmo diante de operações policiais de grande escala. A situação se agrava em um estado que se tornou refúgio para chefes do tráfico de diversas regiões do país, aproveitando-se da complexidade territorial e da fragmentação das forças de segurança.
Orçamento de Inteligência Drenado e Projetos Adiados
A verba prevista para a subfunção ‘Informação e Inteligência’ em 2025 esgotou-se em julho, após um corte superior a 50% da dotação inicial. Em 2024, o planejamento do governo do Rio de Janeiro sofreu alterações significativas: a implantação de um centro tecnológico de inteligência foi cancelada, e o projeto de estabelecer agências de inteligência em 12 delegacias foi postergado. A meta de capacitar quase 1.200 policiais em temas de inteligência foi redefinida para 477, uma redução drástica.
Eficácia das Operações em Xeque pela Falta de Inteligência
Apesar de operações frequentes, como a controversa Operação Contenção nos complexos da Penha e do Alemão, que resultou em um número recorde de mortos mas não capturou alvos centrais, a falta de um trabalho de inteligência robusto é apontada como um gargalo. Karine Vargas, economista e coordenadora do Observatório de Orçamento e Finanças Públicas, destaca que o baixo orçamento destinado à inteligência influencia negativamente os resultados das operações policiais.
O governo do Rio de Janeiro, em nota, informou ter investido mais de R$ 377,5 milhões em equipamentos de inteligência, incluindo câmeras, software e drones, e R$ 201 milhões em ações da Polícia Civil voltadas à área. No entanto, especialistas como Cristiano Maronna, doutor em direito penal, ressaltam o subfinanciamento da Polícia Civil, responsável pela investigação, em detrimento do policiamento ostensivo, o que seria inadequado para enfrentar o crime organizado de forma estrutural.
Investimentos em Equipamentos vs. Estratégia de Inteligência
Apesar dos investimentos em equipamentos como câmeras corporais e drones, o capitão Daniel Ferreira de Souza, da Inteligência da Polícia Militar, admitiu que os resultados obtidos são “ínfimos” diante do poder das facções criminosas. Ele defende que a atividade de inteligência, muitas vezes relegada a um segundo plano, é essencial para a tomada de decisões e para a definição de políticas públicas eficazes no combate ao crime organizado.
O governo também destacou a inauguração da Central de Inteligência da Polícia Civil, com softwares como o Celebrite para análise de dados de dispositivos eletrônicos, e o Centro Integrado de Comando e Controle com sistema de reconhecimento facial. Contudo, a fragilidade na subfunção orçamentária ‘Informação e Inteligência’, que recebeu pouco mais de R$ 1 milhão em 2025 e teve sua verba esgotada em julho, levanta sérias preocupações sobre a prioridade dada à inteligência investigativa.
Falta de Transparência e Redução na Polícia Técnico-Científica
Especialistas como a economista Úrsula Peres e o diretor do Justa, Cristiano Maronna, criticam a falta de transparência nos gastos com inteligência e a redução do orçamento destinado à polícia técnico-científica. A verba para esta área caiu quase pela metade entre 2022 e 2025, impactando a produção de provas e a elucidação de crimes, como o baixo índice de assassinatos esclarecidos no estado.
O governo do RJ afirma que o aparato de inteligência não se restringe a uma única rubrica orçamentária, mas a falta de detalhamento e transparência nos gastos dificulta a identificação de falhas e a garantia de investimentos em áreas prioritárias, segundo a economista Karine Vargas. A diminuição do investimento em inteligência e em polícias investigativas é vista como um indicativo de que a estratégia estadual se concentra no policiamento ostensivo, o que pode não ser suficiente para desarticular as complexas organizações criminosas que atuam no Rio de Janeiro.
Fonte: g1.globo.com
