Cinelândia é palco de protesto contra intervenção dos EUA na Venezuela
A Praça da Cinelândia, no Rio de Janeiro, tradicional ponto de manifestações políticas, recebeu centenas de pessoas na tarde desta segunda-feira para protestar contra o que descreveram como o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores. O ato foi organizado pela Frente de Esquerda Anti-imperialista em Solidariedade à Venezuela, composta por cerca de 50 entidades, e ocorreu após o anúncio, no último sábado (3), de que tropas estadunidenses teriam atacado a capital Caracas e levado Maduro e Flores para uma prisão em Nova York.
Segundo o presidente norte-americano Donald Trump, Maduro é acusado de suposto narcoterrorismo, venda de drogas para os EUA, posse e conspiração para obter armas automáticas. Em audiência em um tribunal nova-iorquino na segunda-feira (5), Maduro declarou-se inocente de todas as acusações e afirmou ser um prisioneiro de guerra. A manifestação na Cinelândia buscou dar voz à indignação de diversos setores contra a ação dos Estados Unidos.
A Agência Brasil esteve presente no ato e ouviu relatos de venezuelanos que vivem no Brasil. O estudante de mestrado Ali Alvarez, de 31 anos, que reside no Brasil há oito anos, expressou sua surpresa e indignação. “Não esperava que isso acontecesse na Venezuela. Me senti indignado“, afirmou, classificando a iniciativa dos Estados Unidos como “uma violência ao povo venezuelano e à nossa Constituição Bolivariana”.
Venezuelanos no Brasil expressam descontentamento
O músico e artista Alexis Graterol, 49 anos, que vive no Brasil há 20 anos, compartilha a angústia de Alvarez e considera as acusações contra Maduro falsas. Para ele, o objetivo de Trump é “se apoderar de recursos naturais da Venezuela”, citando declarações do presidente americano sobre levar “nossas grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos” ao país.
Em contrapartida, o psicólogo venezuelano Marco Mendoza, 38 anos, que mora no Chile e estava de passagem pelo Rio, mostrou uma posição diferente. Ele se declarou “de acordo” com a intervenção dos EUA, argumentando que a Venezuela já sofria intervenções de outros países e que prefere a relação com os Estados Unidos. “Eu prefiro mais 25 anos pagando débito externo aos Estados Unidos do que ficar 25 mais anos com Maduro“, declarou.
Preocupações com soberania e multilateralismo
O cineasta colombiano Raúl Vidales, 45 anos, presente no Rio, manifestou preocupação com a possibilidade de os Estados Unidos voltarem-se contra seu país. Ele apelou por “uma resistência cidadã forte por nossa soberania” e alertou para um “problema da colonização, neste momento feroz e brutal”.
Daniel Iliescu, presidente estadual do PCdoB, compartilhou a expectativa por uma reação internacional. “Esperamos que a sociedade civil na América Latina, os organismos internacionais e governos democráticos de todo o mundo possam reagir e reverter essa situação“, disse. Iliescu avaliou que uma nova etapa histórica se abriu, com o enfraquecimento do multilateralismo em detrimento da força unilateral, e que a atitude de Trump confirma “a decadência contra a qual os Estados Unidos lutam”.
Venezuelanos são o maior grupo de imigrantes no Brasil
De acordo com o IBGE, os venezuelanos representam o maior grupo de imigrantes no Brasil, totalizando 200 mil cidadãos. Entre abril de 2018 e novembro de 2025, mais de 115 mil venezuelanos receberam apoio do Estado brasileiro para regularizar sua situação e fixar residência no país, sendo que 3.290 se estabeleceram no Rio de Janeiro.
Fonte: G1
