Moradores de favelas do Rio de Janeiro desaprovam modelo atual de operações policiais
Uma pesquisa recente revela que a vasta maioria dos moradores de favelas do Rio de Janeiro, cerca de 92%, desaprova as operações policiais com confronto armado nos moldes atuais. O estudo, conduzido por seis organizações da sociedade civil, ouviu 4.080 pessoas em quatro grandes comunidades cariocas: Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Maré e Rocinha. A iniciativa buscou analisar o impacto dessas ações no cotidiano das comunidades e as percepções sobre segurança pública.
A diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva, coordenou a pesquisa, que visa contextualizar a relação entre a população e as forças policiais, considerando o histórico de intervenções e seus efeitos. Os resultados indicam uma forte insatisfação com o formato das operações, com 73% dos entrevistados não concordando com o modelo dos últimos anos.
Os dados evidenciam que 68% dos moradores acreditam que as operações deveriam ocorrer de outra maneira, enquanto 24% defendem que não deveriam acontecer em favelas. Entre aqueles que concordam com as ações, apenas 20% apoiam o modelo vigente, demonstrando uma clara demanda por mudanças na abordagem policial.
Impactos e percepções de insegurança nas comunidades
O levantamento aponta que 91% dos entrevistados percebem excessos e ilegalidades em ações policiais durante operações. Esse índice permanece alto mesmo entre os que apoiam as operações, chegando a 85%, o que sugere uma distinção entre o apoio à presença policial e a forma como ela é exercida.
Os principais impactos negativos relatados pelos moradores incluem a restrição de circulação (51% entre os que discordam das operações e 41,5% entre os que concordam), seguida pela invasão ou violação de domicílios, estabelecimentos comerciais ou veículos (37,5% e 22,9%, respectivamente). Tiroteios recorrentes e o medo de balas perdidas também foram mencionados.
A pesquisa também associa esses efeitos à alta densidade populacional e ao histórico de confrontos armados nos territórios. Em relação à letalidade, houve um aumento de 58% na Maré em 2025 comparado a 2024, com 92 operações registradas com confronto, mortes e feridos entre 2023 e 2025.
Medo da polícia e percepção de racismo
Um dado alarmante é que 78% dos moradores sentem medo da polícia durante as operações, percentual que atinge 85% entre os contrários às ações. Mesmo entre os que apoiam as operações, o medo da polícia (59%) supera o medo de grupos armados (53%), indicando uma percepção simultânea de múltiplas fontes de violência.
Além disso, 61% dos entrevistados percebem racismo na forma como as operações são planejadas e executadas. Essa percepção é mais acentuada entre pessoas pretas, que discordam das operações em 81% dos casos, contrastando com 30% de concordância entre pessoas brancas.
Os jovens de 18 a 29 anos, grupo mais exposto à violência, também se mostram majoritariamente contrários às operações (79%). A maioria absoluta dos entrevistados (85%) acredita que operações semelhantes não devem se repetir, reforçando o desejo por novas abordagens em segurança pública.
Fonte: Agência Brasil
