Conferência de Aids no Rio de Janeiro levanta preocupações sobre financiamento
A 26ª Conferência Internacional de Aids, o principal evento global sobre o tema, está sendo realizada no Rio de Janeiro até sexta-feira (31). O encontro ocorre em um momento crítico, com uma significativa retração no financiamento internacional destinado à resposta ao HIV.
Segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), os recursos para o enfrentamento da epidemia podem sofrer uma queda de 30% a 40% em 2025, em comparação com os níveis de 2023. Essa redução, somada à menor assistência internacional ao desenvolvimento, compromete programas essenciais de prevenção, tratamento e pesquisa, além de iniciativas lideradas por comunidades afetadas.
Apesar dos avanços, como a queda de 56% nas mortes relacionadas à doença e a redução de 43% em novas infecções desde 2010, a falta de investimento ameaça os progressos. Mais de 32 milhões de pessoas vivem com HIV e têm acesso ao tratamento antirretroviral, mas o risco de retrocesso é iminente.
Soluções existem, mas falta vontade política, afirmam especialistas
Juliana César, coordenadora da Gestos, organização que atua na articulação política e comunicação, destacou em entrevista à Rádio Brasil de Fato que as ferramentas científicas e os medicamentos necessários para acabar com a Aids como ameaça à saúde pública até 2030 já existem. O principal obstáculo, segundo ela, é a falta de escolha política e de alocação adequada de recursos.
“A gente tem as ferramentas atualmente para acabar com a Aids como ameaça de saúde pública até 2030. […] O que está faltando é a responsabilidade política e a alocação de recursos”, afirmou César. Ela ressalta que o dinheiro existe, mas está sendo direcionado para outras áreas, como o crescente gasto militar mundial.
César exemplifica que os recursos gastos em apenas três dias com atividades militares seriam suficientes para garantir a resposta integral ao HIV globalmente. A declaração reforça o argumento de que a questão é uma escolha política, não uma carência de verba.
Déficit de financiamento e retrocessos conservadores
As Nações Unidas apontam um déficit anual de cerca de US$ 3 bilhões no financiamento para o combate ao HIV. Esse cenário é agravado por uma onda conservadora que ataca grupos vulneráveis, como mulheres, população LGBT+, pessoas que usam drogas e organizações comunitárias que desempenham um papel crucial na capilaridade das ações de saúde.
O Brasil, apesar dos desafios, é destacado pelo seu Sistema Único de Saúde (SUS) na resposta ao HIV, garantindo o acesso a medicamentos. Contudo, a coordenadora da Gestos também criticou a ganância de farmacêuticas que impõem preços exorbitantes por medicamentos essenciais, dificultando o acesso a tratamentos mais recentes e eficazes.
Fonte: Brasil de Fato
