Lapa: o charme histórico em xeque pela violência urbana
A Lapa, reduto boêmio e cartão-postal do Rio de Janeiro, tem sido palco de uma crescente preocupação com a segurança pública. O que antes era apenas a vibrante agitação de um centro urbano, hoje se mistura a relatos de assaltos, arrastões e outros crimes que afetam a experiência de quem frequenta ou vive na região.
Um executivo do mercado imobiliário levantou um questionamento pertinente: “Você acredita que pode acontecer na Lapa o que está acontecendo na Cinelândia?”. A pergunta ecoa a apreensão de que a concentração de esforços de segurança em uma área específica pode levar à dispersão da criminalidade para os arredores, como a Lapa, que já lida com desafios de tranquilidade.
A influenciadora Samanta Alves vivenciou essa dura realidade durante uma gravação no Carnaval de 2026. O que deveria ser um cenário vibrante em frente aos Arcos da Lapa se transformou em um alerta de assalto, com a equipe quase perdendo o equipamento. As imagens viralizaram, expondo a tensão entre o cenário turístico e a insegurança que se espalha.
A Lapa de ontem e os desafios de hoje
Para quem viveu a Lapa em outras épocas, como o autor desta matéria, que estudou na região, a transformação é visível e, por vezes, dolorosa. A lembrança de uma Lapa de cerveja barata, festas improvisadas e forró no Democráticos contrasta com a atual sensação de insegurança que paira sobre o bairro.
A região, que já foi palco de preconceito contra moradores e viu a especulação imobiliária chegar, passou de ponto de passagem a destino turístico. No entanto, a capacidade de resiliência da Lapa, que atravessou diversas crises, parece ser testada novamente pela escalada da violência.
A imagem do malandro e a realidade cultural
A figura icônica do malandro carioca, frequentemente associada à Lapa, é retratada com um visual elegante, terno de linho branco, sapatos bicolores e chapéu panamá. Essa imagem, embora marcante, é vista por especialistas como um estereótipo que evoluiu ao longo do tempo, com significados diversos.
Moreira da Silva, cantor conhecido por interpretar malandros, defendia que o malandro não era quem não trabalhava, mas sim quem evitava o trabalho pesado. Essa perspectiva oferece uma visão mais complexa sobre a figura que se tornou símbolo da boemia carioca.
Democráticos: um clube com história e legado
O Clube Democráticos, fundado em 1867, tem uma origem peculiar: um prêmio de loteria. Um grupo de amigos, com o sonho de criar um clube carnavalesco, viu seu projeto sair do papel após uma aposta premiada.
O espaço se consolidou como um importante ponto cultural e político, ligado a movimentos como o fim da escravidão e a Proclamação da República. Sua sede, com azulejos que retratam figuras do carnaval e homenagens a ícones da cultura popular, como Charlie Chaplin, é um testemunho vivo da rica história da Lapa.
Fonte: O Globo
