Governo interino do Rio de Janeiro paralisa aquisição de helicóptero militar
O governo em exercício do Rio de Janeiro suspendeu a compra de um helicóptero militar Black Hawk, com valor estimado em mais de R$ 70 milhões. A decisão foi tomada após a alta cúpula do Palácio Guanabara identificar suspeitas sobre a procedência da aeronave, possíveis vínculos entre empresas participantes da licitação e questionamentos sobre a utilidade operacional do equipamento em áreas urbanas densas.
A revisão do contrato integra a lista de auditorias determinadas pelo governador interino, o desembargador Ricardo Couto, que assumiu o cargo em meio a uma reavaliação de contratos firmados na gestão anterior. O modelo em questão é o Sikorsky UH-60L Black Hawk, utilizado pelas Forças Armadas dos Estados Unidos e por corporações de segurança em diversos países.
O contrato previa o pagamento de aproximadamente US$ 12,5 milhões à empresa Blue Air Táxi Aéreo. A negociação passou a ser questionada internamente após a constatação de que o valor estava significativamente abaixo do praticado em compras recentes pela Aeronáutica, que adquiriu unidades do mesmo modelo por mais de US$ 20 milhões cada em 2025. Essa discrepância levanta a hipótese de que a aeronave negociada para o Rio de Janeiro pudesse ser usada ou conter peças reaproveitadas.
Suspeitas de direcionamento e vínculos empresariais levantam alerta
O processo licitatório, iniciado em 2024 pela Polícia Militar (PM) para aquisição de uma aeronave blindada para o Grupamento Aeromóvel (GAM), começou a ser questionado em audiência pública em agosto de 2025. Participantes levantaram suspeitas de que as exigências do edital poderiam restringir a concorrência e favorecer um modelo específico, o Black Hawk. A PM justificou a necessidade da compra pelo aumento de ataques a helicópteros em operações em comunidades, com registro de 66,6% de avarias em aeronaves entre 2022 e 2025.
A situação ganhou ainda mais peso quando se observou que a própria Aeronáutica havia dispensado licitação para comprar Black Hawks, alegando que apenas uma fornecedora norte-americana possuía a capacidade técnica para tal venda. Durante a audiência, Fernando Carlos da Silva Telles, conhecido como “Tico-Tico” e representante da empresa Flyone, levantou questionamentos. Meses depois, a Flyone deixou de apresentar proposta final, enquanto a Blue Air surgiu na fase decisiva e foi declarada vencedora.
A relação entre empresas envolvidas no processo chamou atenção após documentos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) revelarem que Daniel de Sousa Freitas da Silva Telles, sobrinho de Fernando Telles, é diretor de operações da Blue Air. Daniel trabalhou anteriormente na Flyone e, mais recentemente, foi licenciado da Polícia Rodoviária Federal, onde atuava como piloto, para tratar de interesses particulares. A Polícia Rodoviária Federal confirmou que o policial possui habilitação como comandante de helicópteros e está afastado desde o ano passado.
Outro ponto de investigação é Renato Carriço dos Santos, representante da Blue Air, que esteve presente no anúncio oficial da compra do Black Hawk ao lado de Cláudio Castro e do secretário da Polícia Militar. Carriço trabalhou por mais de duas décadas na Ancoratek Manutenção de Aeronaves, empresa que pertenceu a Fernando Telles e que foi investigada pela Marinha após um acidente em 2023. O nome de Fernando Telles também aparece ligado a investigações do Ministério Público Federal (MPF) no Acre sobre acidentes envolvendo aeronaves da Flyone em contratos de transporte para comunidades indígenas. A Ambipar comprou a Flyone durante o processo licitatório do Rio e demitiu Fernando Telles em novembro de 2025.
Questionamentos sobre a viabilidade operacional do Black Hawk em áreas urbanas
Além das suspeitas envolvendo as empresas, integrantes do governo interino passaram a questionar a utilidade prática do Black Hawk em operações urbanas. Com cerca de quatro toneladas, o helicóptero exige áreas maiores para pouso e manobra. Técnicos consultados pela gestão estadual expressaram preocupação com o efeito do deslocamento de ar provocado pelas hélices em voos rasantes sobre comunidades, o chamado “rotor wash”, que pode afetar telhados e estruturas leves em regiões densamente povoadas. A aeronave pode ultrapassar os 350 km/h.
Um fator jurídico adicional considerado é a restrição imposta pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da ADPF das Favelas, que estabeleceu limites para operações policiais em comunidades do Rio de Janeiro e criou protocolos específicos para o uso de aeronaves. Apesar do anúncio oficial da compra e do envio de policiais militares para treinamento nos Estados Unidos, com um custo previsto de mais de US$ 1 milhão, o contrato permanece paralisado.
Em nota, o governo estadual informou que a compra do helicóptero Black Hawk está sob análise técnica e jurídica e permanecerá suspensa enquanto durar a auditoria conduzida pela gestão interina.
Fonte: O Globo
