Desvio de R$ 20 milhões da Faperj para o Segurança Presente sob suspeita de influência política
Um relatório interno do governo do Rio de Janeiro revelou que a expansão do programa Segurança Presente foi parcialmente financiada com recursos da Faperj (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). A investigação aponta que o direcionamento de aproximadamente R$ 20 milhões para a abertura de dez novas bases do programa não seguiu critérios técnicos, mas sim interesses políticos de deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), ligados à bancada do PL.
O convênio, que previa o repasse milionário, ocorreu enquanto a Faperj estava sob a influência política do então secretário estadual de Ciência e Tecnologia, o deputado Anderson Moraes. Documentos indicam que a instalação de diferentes bases do Segurança Presente foi diretamente associada a interesses eleitorais de parlamentares, incluindo o presidente da Alerj, Douglas Ruas, e os deputados Thiago Gagliasso, Índia Armelau e Filippe Poubel. O processo também registra o uso de emendas parlamentares para financiar unidades em municípios do interior.
Este episódio expõe uma grave contradição: recursos destinados à promoção da ciência, tecnologia e pesquisa científica foram desviados para um programa de segurança pública, área que deveria ter orçamento e planejamento próprios. A utilização de verbas da Faperj para ações policiais evidencia não apenas um desvio de finalidade administrativa, mas também uma inversão de prioridades em um estado que já sofre com o sucateamento de universidades públicas e a precarização da pesquisa científica.
Deterioração do Hub de Inovação da Faperj Contrasta com Investimento em Segurança
A situação se torna ainda mais simbólica com a observação do prédio histórico que abriga o hub de inovação da Faperj, no bairro do Catete. O imóvel segue sem reformas estruturais adequadas, incluindo a recuperação de sua fachada, apesar de representar a política estadual de ciência e inovação. A deterioração física do espaço amplia a percepção de desconexão entre a missão original da fundação e a forma como seus recursos vêm sendo aplicados.
Prioridades Invertidas e Crise de Identidade Institucional
Enquanto laboratórios, pesquisadores e universidades enfrentam dificuldades de financiamento e manutenção de infraestrutura básica, recursos milionários foram direcionados para programas de segurança pública associados a disputas político-eleitorais. O contraste entre o abandono de um patrimônio ligado à produção do conhecimento e a priorização de iniciativas alheias à pesquisa explicita uma crise de identidade institucional da própria Faperj.
Interferência Política na Definição Territorial do Programa
As evidências apontam para uma ingerência política na definição territorial do programa Segurança Presente. Em vez de seguir estudos técnicos e indicadores de violência, a expansão das bases teria atendido aos interesses de parlamentares em seus redutos eleitorais, transformando um programa estatal em instrumento de capital político. O caso expõe a fragilidade dos mecanismos de controle sobre fundos públicos destinados à ciência.
Reação do Governo e Promessas de Auditoria
Diante das denúncias, o governo estadual anunciou a transferência do Segurança Presente para a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro e a realização de uma auditoria no programa. A promessa é que futuras expansões sejam orientadas por mapas de incidência criminal e critérios técnicos, buscando reduzir o peso das articulações políticas na condução da política de segurança pública.
Fonte: G1
