Mulheres são presas em 76% das ocorrências de transporte de drogas e armas na Rodoviária do Rio
A estratégia do “tráfico formiguinha”, onde armas e drogas são fracionadas e transportadas em pequenas quantidades, tem se tornado cada vez mais comum no Rio de Janeiro. Em muitos casos, essa tarefa recai sobre mulheres, que buscam driblar a fiscalização policial. Dados do Batalhão de Polícia de Turismo (BPTur) revelam que, no ano passado, 76% das 41 ocorrências de transporte de drogas e armas na Rodoviária do Rio resultaram na prisão de mulheres.
Um exemplo recente ocorreu quando uma mulher foi abordada em fevereiro, transportando um fuzil e dois carregadores escondidos em malas. Ela relatou ter vindo da Bahia, passando pelo Espírito Santo, com destino à Rocinha, comunidade dominada pelo Comando Vermelho. A prisão é mais um indicativo da adoção dessa tática pelas facções criminosas.
O envolvimento feminino no transporte de armamentos tem sido objeto de estudo. Uma pesquisa publicada na Revista de Inteligência de Segurança Pública analisou prisões entre 2019 e 2023 na rodoviária e constatou que a maioria das presas (65%) tinha entre 18 e 24 anos e ensino fundamental incompleto. Essas jovens são atraídas pelas facções com promessas de ganhos financeiros rápidos, recebendo entre R$ 1 mil e R$ 2 mil pelo serviço.
Jovens são o principal alvo do recrutamento para transporte de ilícitos
A pesquisa aponta que a faixa etária de 18 a 24 anos é a mais visada pelas facções para o transporte de drogas e armas. Essas jovens, muitas com ensino fundamental incompleto, são seduzidas pela promessa de dinheiro fácil e rápido, recebendo valores que variam de R$ 1.000 a R$ 2.000 por cada transporte realizado.
Um caso emblemático ocorreu em novembro do ano passado, quando 30 pistolas calibre 9mm e 63 carregadores foram apreendidos em Itatiaia, RJ. A carga, vinda de São Paulo, estava escondida em almofadas e pertencia a Gilmara Barbosa dos Reis Assis, de 27 anos. Ela confessou ter recebido R$ 2 mil para realizar o transporte interestadual, a pedido de uma “amiga”.
Mulheres também ocupam posições estratégicas nas facções
Embora o “tráfico formiguinha” seja uma estratégia comum, Bruno Langeani, especialista em controle de armas, ressalta que as mulheres não se limitam a funções de transporte. Ele explica que a escolha delas para essas tarefas visa, muitas vezes, reduzir o risco de abordagem policial, por despertarem menos suspeitas. Contudo, já foram identificadas mulheres atuando em posições mais estratégicas, como no recrutamento, logística e até na chefia de esquemas.
Um exemplo disso é Ana Lúcia Ferreira, de 41 anos, que atuava como intermediária na compra de armas e drogas. Sua experiência em negociações na fronteira com o Paraguai lhe rendeu prestígio junto a criminosos do Comando Vermelho, sendo considerada essencial em acordos milionários. Ela foi indiciada por lavagem de dinheiro, tráfico interestadual e associação para o tráfico.
As investigações revelaram a influência de Ana Lúcia, que se gabava de sua capacidade de articulação com fornecedores e traficantes de alto escalão. Em uma conversa interceptada, ela demonstrava sua importância ao contar que fornecedores ofereceram US$ 5 mil apenas para que ela apresentasse Fhillip da Silva Gregório, o “Professor”, chefe do tráfico no Complexo do Alemão, como comprador. A dinâmica das negociações mostrava que, mesmo figuras como o “Professor” dependiam de sua atuação para fechar negócios vantajosos.
Fonte: G1
