O Monopólio do Crime Organizado no Rio de Janeiro
Facções criminosas e milícias no Rio de Janeiro expandiram seu controle para além do tráfico de drogas, avançando sobre a distribuição de produtos essenciais e a oferta de serviços. Essa nova dinâmica impacta diretamente o cotidiano da população e a economia formal do estado.
Um levantamento aponta que pelo menos 19 bens e serviços já são monopolizados por esses grupos, que operam como verdadeiros cartéis territoriais. Desde alimentos básicos até materiais de construção, o crime organizado dita regras de fornecimento e preço em áreas sob seu domínio.
O resultado é um ambiente de negócios desorganizado, com concorrência desleal e aumento de custos para empreendedores que buscam atuar dentro da legalidade. A situação se agrava com a migração dos criminosos para setores formais da economia, como explica o promotor Fábio Corrêa.
A ‘Terceira Onda’ do Crime Organizado: Controle da Economia Formal
O promotor Fábio Corrêa, do Ministério Público do Rio, classifica o atual cenário como a “terceira onda” de atuação do crime organizado. Após dominar o varejo de drogas e a exploração de serviços clandestinos (TV a cabo, internet, transporte alternativo), os grupos agora se infiltram em setores da economia formal.
Essa nova estratégia envolve o controle do fornecimento de matérias-primas e produtos essenciais. Em vez de apenas extorquir, criminosos abrem seus próprios negócios ou impõem a comercialização de produtos específicos, definindo preços e fornecedores. “Eles criam e administram suas próprias empresas”, afirma Corrêa.
Impacto Econômico: Prejuízo Bilionário e Queda na Produtividade
A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) estima que esse domínio do crime organizado custa cerca de R$ 21,4 bilhões por ano à economia formal fluminense. Esse prejuízo engloba o impacto de mercados ilícitos na produção, circulação e comercialização de bens.
Daniel Cerqueira, economista do Ipea, ressalta que a infiltração no mercado formal “puxa a produtividade da economia para baixo”. Empresas deixam de operar pela lógica de mercado, focada em eficiência e competitividade, resultando em redução da capacidade de crescimento sustentável.
Além disso, as áreas dominadas pelo crime se tornam hostis para empresas legais, que enfrentam riscos elevados, extorsão e insegurança. Isso compromete o desenvolvimento local, afasta investimentos e força empreendedores a fecharem as portas, aumentando a informalidade.
Exemplos Práticos: Da Farinha ao Gás
Um caso emblemático ocorreu em Paciência, Zona Oeste do Rio, onde um padeiro foi assassinado por se recusar a pagar a “taxa da farinha”, imposta pelo crime organizado. A taxa não só controlava o fornecedor de trigo, mas também o preço final do pão.
Investigações identificaram empresas ligadas ao crime monopolizando a distribuição de trigo na Zona Oeste. O controle se estende a outros produtos, como botijões de gás, água mineral, arroz, cigarros e bebidas. Moradores relatam serem obrigados a comprar exclusivamente de empresas ligadas a milícias, vivendo sob coação.
O setor de materiais de construção também é afetado, com a venda de tijolos e areia controlada por paramilitares em municípios da Baixada Fluminense. Há suspeitas de extorsão a usinas de energia solar, com exigência de contratação de empresas de manutenção vinculadas a grupos criminosos.
Fonte: O Globo
