Contrabando de Medicamentos para Emagrecer: Rota Ilegal do Paraguai para o Rio de Janeiro
A busca por um corpo mais magro tem impulsionado um mercado ilegal de medicamentos para emagrecer, com rotas que partem do Paraguai e chegam ao Rio de Janeiro. A mercadoria, muitas vezes vendida sem prescrição médica no país vizinho, atravessa a fronteira e é distribuída no estado carioca, movimentando uma economia paralela.
Investigações e relatos obtidos pelo jornal O GLOBO revelam que parte significativa dessa carga cruza a fronteira pela Ponte da Amizade, entre Ciudad del Este e Foz do Iguaçu. A partir de Foz, os produtos seguem por rodovias federais ou, com frequência, por meio de voos domésticos até o Rio de Janeiro.
A Polícia Federal tem intensificado as apreensões no Aeroporto Internacional do Galeão. Somente este ano, foram instaurados 14 procedimentos sobre o contrabando de canetas emagrecedoras, sendo dez deles relacionados a voos vindos de Foz do Iguaçu. Nas últimas duas semanas, sete procedimentos resultaram na apreensão de 415 medicamentos emagrecedores.
A Rota da Mercadoria Clandestina
O delegado da Polícia Federal, Sandro Luiz do Valle Pereira, destaca a diversidade do perfil dos contrabandistas. “O interessante é que homens, mulheres e idosos tentam entrar com esses produtos, é um perfil difuso. Pessoas que compram para si mesmas, enquanto outras compram para vender para terceiros ou parentes”, explica.
Em áudios obtidos pela reportagem, uma vendedora detalha o processo: “Nós temos uma pessoa que vai para o Paraguai. Lá, ela compra nas farmácias ou laboratórios, onde o produto é vendido sem receita médica e muito mais barato que aqui. De carro, faz a travessia por Foz do Iguaçu. Os produtos chegam refrigerados, vêm com gelo. Não tem erro”. Ela também menciona que atravessadores pagam 30% do valor dos produtos em dólar a facilitadores para a liberação da mercadoria.
A Polícia Federal afirma atuar “de forma permanente no enfrentamento a crimes relacionados à importação, comercialização e distribuição irregular de medicamentos e insumos sujeitos à vigilância sanitária”.
Desafios na Fiscalização
A necessidade de controle de temperatura para a conservação de ampolas como a tirzepatida e a retatrutida impõe desafios à fiscalização. O auditor-fiscal Ricardo José Mesquita, da Receita Federal, relata que as equipes já encontraram diversas formas de ocultação nas bagagens dos passageiros, incluindo “garrafas térmicas recheadas com ampolas de tirzepatida para manter a temperatura até garrafas de vinho e potes de doce de leite usados para esconder canetas e medicamentos”.
Uma vendedora informal da Zona Oeste do Rio contou que entrou no negócio após obter resultados com o uso das próprias ampolas. “Estava desempregada. Comecei a tomar, e vi que trazia resultado. Todo mundo pode querer ser magro”, disse.
Mercado Ilegal Alcança Presídios
O mercado clandestino de medicamentos para emagrecer também chegou ao sistema penitenciário. Em janeiro deste ano, um policial penal foi flagrado tentando entrar no Presídio Evaristo de Moraes, no Rio de Janeiro, com anabolizantes, hormônios e uma caixa de caneta emagrecedora.
É importante ressaltar que grande parte desses medicamentos vendidos clandestinamente não possui autorização para comercialização no Brasil. A Anvisa informa que os medicamentos registrados com semaglutida são Ozempic, Rybelsus, Wegovy, Poviztra e Extensior. Para tirzepatida, apenas Mounjaro e Mounjaro Multidose possuem registro no país.
Fonte: O Globo
