Arquivo do TJRJ guarda processos históricos dos pioneiros do samba carioca
A rica história do samba e do carnaval carioca transcende os limites físicos da Marquês de Sapucaí. Ela se espalha pelas ruas da cidade e também reside em valiosos documentos. Uma parte significativa dessa memória está preservada no Arquivo Central do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), em processos judiciais que trazem à luz personagens cruciais para a identidade do Rio.
Nestes autos, encontram-se informações que auxiliam na compreensão de transformações urbanas, debates sobre censura e questões de propriedade intelectual. O acervo, custodiado pelo Departamento de Gestão de Acervos Arquivísticos (Degea), inclui inventários e partilhas de artistas como Heitor dos Prazeres, Tia Ciata e João da Baiana, nomes fundamentais na consolidação do samba na região conhecida como Pequena África.
Esses documentos oferecem uma perspectiva única sobre a vida e o legado desses pioneiros, revelando fragmentos de suas trajetórias e seu impacto na formação cultural da cidade. A preservação desses processos é vista como um ato de resistência e um tesouro para a memória cultural do Brasil.
Legado de Heitor dos Prazeres e a Pequena África
O inventário de Heitor dos Prazeres, artista plástico, compositor e sambista, detalha suas inúmeras composições e partituras, como o clássico “O Pierrô Apaixonado”. Seus quadros retratam a vida das comunidades negras, festas e rodas de samba. O processo, aliado ao seu vasto legado artístico, reforça seu papel como figura essencial para entender a identidade cultural da Pequena África e o desenvolvimento do samba no Rio de Janeiro.
Tia Ciata: Matriarca e Guardiã do Samba
O processo de partilha de Tia Ciata, figura central nos encontros que deram origem ao samba urbano, revela aspectos de sua estrutura familiar e patrimônio. Embora pesquisas indiquem que ela teve 14 descendentes, o documento registra a divisão da herança entre apenas quatro filhos, levantando questões sobre reconhecimento legal ou ausência dos demais. O processo também menciona seu falecimento por colapso cardíaco e sua condição de viúva, com uma modesta estabilidade econômica. Foi em seu quintal que se compôs o marco “Pelo Telefone”, o primeiro samba gravado da história.
João da Baiana e a Introdução do Pandeiro
O inventário de João da Baiana, filho de Tia Perciliana e responsável por introduzir o pandeiro no samba carioca, é outro destaque. Em uma época em que o gênero musical era criminalizado, João da Baiana chegou a ser detido diversas vezes por tocar pelas ruas. Um episódio marcante foi o presente recebido do senador Pinheiro Machado: um pandeiro com dedicatória, que serviu como uma espécie de salvo-conduto, permitindo que continuasse a tocar sem ser preso.
Um Acervo Fundamental para a Memória Social
Com mais de oito milhões de processos, o Arquivo Central do TJRJ não só preserva a história do Judiciário, mas também uma parte fundamental da memória social carioca e brasileira. Historiadores ressaltam que esses autos materializam a memória da escravidão e suas resistências no Rio de Janeiro pós-abolição, demonstrando como a herança da escravidão se converteu em protagonismo negro na formação da cidade.
Fonte: G1
