A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) tem sido palco de uma série de escândalos que abalam a política fluminense.
Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e o presidente da República já manifestaram preocupação com a situação, com alegações que variam de infiltração do crime organizado a recebimento de mesadas por parlamentares. A atual crise política levou o STF a manter um desembargador como governador interino, em vez do presidente da Alerj, Douglas Ruas.
A história recente da Alerj é marcada por um alto índice de afastamentos e prisões de seus presidentes, em um cenário comparado à CBF do futebol. Dos cinco presidentes eleitos neste século, apenas um não foi preso. O atual presidente, Rodrigo Bacellar, teve sua prisão decretada por suspeita de vazamento de dados de uma operação contra o Comando Vermelho e já teve seu mandato cassado por abuso de poder político e econômico.
Outros dois integrantes da Alerj foram presos recentemente sob indícios de corrupção e associação com o tráfico. Em resposta às acusações, a Alerj declarou que não reconhece qualquer relação com contravenção penal e que atua com austeridade. A instituição também considerou “inaceitável qualquer tentativa de generalizar ou criminalizar o Parlamento fluminense”. Conforme informação divulgada pela Folhapress.
Histórico de Escândalos e Mudança de Sede
A Alerj, desde sua criação em 1975, já enfrentou escândalos significativos, muitos deles originados em sua antiga sede, o Palácio Tiradentes. Operações como a Cadeia Velha (2017) e a Furna da Onça (2018) resultaram na prisão de presidentes da Casa e desbarataram esquemas de corrupção que envolviam mesadas a deputados em troca de votos favoráveis a interesses do governo. A “rachadinha”, prática de apropriação de parte de salários de funcionários, também veio à tona com Flávio Bolsonaro, então deputado estadual.
Em 2021, os deputados se mudaram para o Edifício Banerj, apelidado de “Alerjão”. A nova sede, um prédio de 30 andares no centro do Rio, passou por um retrofit que conferiu um ambiente mais frio e impessoal. A galeria para o público também foi alterada, com visão parcial do plenário isolado por vidros, diferentemente da antiga sede.
Debates e a Nova Composição da Casa
As sessões ordinárias na Alerj têm abordado temas variados, desde a instalação de banheiros neutros até a regulamentação de estabelecimentos de bronzeamento artificial. No entanto, a Casa tem sido criticada pela sua estrutura de pessoal, com um alto número de funcionários comissionados por deputado. Um deputado veterano, Luiz Paulo, defendeu que o funcionalismo não é o causador do déficit estadual, mas sim o desperdício de recursos e crimes contra o erário.
A ascensão do bolsonarismo influenciou a pauta da Alerj, com a predominância de representantes da direita radical. A Casa também tem visto a eleição de figuras midiáticas, como celebridades e subcelebridades da internet, que muitas vezes obtêm sucesso eleitoral por fama ou parentesco, em detrimento de experiência política. Exemplos incluem Thiago Gagliasso, irmão de Bruno Gagliasso; Samuel Malafaia, irmão de Silas Malafaia; e Pedro Brazão, membro de uma família com histórico de envolvimento em crimes.
Influenciadores digitais como Sarah Poncio e Giselle Monteiro, esta última ligada ao ex-vereador Gabriel Monteiro, também conquistaram cadeiras na Alerj. Renan Jordy, irmão do deputado federal Carlos Jordy, também faz parte do Legislativo fluminense. A “tropa de choque” de Rodrigo Bacellar, composta por quatro deputados do PL, permanece ativa, com membros que se notabilizaram por atos controversos, como a quebra de placa em homenagem a Marielle Franco e agressões físicas.
O “Ethos” da Alerj e o Crime Organizado
Um delegado aposentado da Polícia Civil, Vinícius George, que atuou na Alerj, descreve a casa como o “escritório central do crime organizado”. Segundo ele, o controle das polícias e a nomeação de chefes de polícia passam pela Alerj. George afirma que o que ocorre no Rio não é uma crise, mas sim o “ethos” da instituição, indicando uma atuação criminosa arraigada.
Atualmente, a Alerj vive um clima de tensão devido aos desdobramentos das investigações e ao rumor de que Rodrigo Bacellar estaria negociando uma delação premiada. Impedido de assumir o governo e sob pressão, Douglas Ruas buscou contra-atacar criando uma comissão para analisar despesas dos três Poderes e propor cortes de gastos.
Fonte: FOLHAPRESS
