A Rocinha conquista o mundo com vídeo de drone e se torna fenômeno global
O que começou como um vídeo gravado nas lajes da Rocinha, no Rio de Janeiro, ao som da música “Baianá” do grupo Barbatuques, transformou-se em um fenômeno viral nas redes sociais. A cena, que mostra uma pessoa caminhando até um terraço improvisado e posando enquanto a câmera se afasta revelando a paisagem, tem sido replicada por pessoas em diversos países e cenários.
Essa estética cinematográfica, que contrasta a imensidão da comunidade com o mar, o Cristo Redentor e a Lagoa Rodrigo de Freitas, elevou a Rocinha, considerada a maior favela do Brasil, a um patamar de referência internacional. O sucesso da trend não se limitou às fronteiras brasileiras, inspirando recriações em locais como o Peru, Portugal e até mesmo em Nova York, onde jovens adaptaram a ideia aos seus próprios cenários urbanos.
No Brasil, a trend também ganhou releituras criativas, muitas vezes com um toque de humor e referências à identidade local. Um exemplo é a versão de Leidivan Sampaio, morador da zona rural de Manhuaçu (MG), que conectou a “Rocinha” do Rio à sua própria “rocinha” mineira, demonstrando o alcance e a capacidade de adaptação do fenômeno. Conforme informação divulgada pelo G1.
Roteiro Turístico Estruturado na Rocinha Impulsionado pela Trend
Na Rocinha, a popularidade do vídeo transcendeu a viralização digital e se integrou a um roteiro turístico estruturado. Desenvolvido em parceria com a comunidade e a associação de moradores, o roteiro inclui guias, mototaxistas e pontos específicos para gravação, como as lajes “Porta do Céu”, “Bela Vista”, “Alto Visual”, “Vista Show” e “De Cara para o Gol”.
Na Favela Turismo: Estruturando a Experiência e Beneficiando a Comunidade
O aplicativo Na Favela Turismo, criado por Renan Monteiro, foi fundamental para organizar o fluxo de turistas que passaram a visitar a favela após a popularização do vídeo. A iniciativa visa evitar a exploração desorganizada do território e garantir que os moradores sejam os principais beneficiados economicamente. “Quando as pessoas chegam interessadas no vídeo, a gente explica que ele faz parte do roteiro turístico e que, por lá, é possível conhecer a cultura da favela, passar pela gastronomia e gravar o conteúdo em alguma das lajes”, explica Monteiro.
Impacto Econômico e Cultural: Da Baixa Temporada à Autoestima Elevada
A viralização da trend aumentou significativamente a procura pelo passeio turístico, que pode custar cerca de R$ 320. Segundo Monteiro, em fevereiro, 41 mil visitantes foram cadastrados no aplicativo, sendo 70% estrangeiros, muitos chegando com o vídeo da trend salvo no celular. O guia Guilherme Valentim, conhecido como Guinnes, relata que a demanda é tão alta que a baixa temporada praticamente foi eliminada, com turistas atravessando oceanos apenas para realizar a gravação.
Para a turismóloga e antropóloga Caroline Bottino, o fenômeno reflete o interesse crescente do turista contemporâneo por experiências autênticas e por territórios “fora do circuito”. Ela destaca que o caso da Rocinha exemplifica o avanço do turismo de base comunitária, onde os próprios moradores lideram a apresentação de seu território. “Para a comunidade, isso tem gerado um impacto significativo. O fato de ter viralizado e estar sendo reproduzido em outros lugares contribui para a autoestima dos moradores, fortalecendo a sensação de pertencimento e o orgulho pelo lugar onde vivem”, afirma.
Debates e Controvérsias: Turismo da Pobreza e Glamourização da Desigualdade
Apesar dos benefícios econômicos e do fortalecimento da autoestima local, a trend também reacende debates sobre o chamado “turismo da pobreza”. Especialistas questionam se o interesse externo realmente contribui para reduzir desigualdades ou se as transforma em conteúdo. Publicações internacionais apontam para o risco de os vídeos glamourizarem a desigualdade. A especialista Caroline Bottino, no entanto, contrapõe, afirmando que o interesse dos turistas é pela “alma do povo brasileiro” e que o cenário único da Rocinha, com seu contraste visual, desperta genuíno interesse.
Fonte: G1
