Penduricalhos turbinam salários no Rio: 90% do MPRJ ganham mais de R$ 100 mil e desembargador recebeu R$ 287 mil

Penduricalhos turbinam salários no Rio: 90% do MPRJ ganham mais de R$ 100 mil e desembargador recebeu R$ 287 mil

Salários milionários no Rio: ‘Penduricalhos’ superam teto constitucional em órgãos públicos A remuneração de servidores públicos no Rio de Janeiro tem sido impulsionada por uma série de gratificações e indenizações, conhecidas como ‘penduricalhos’, que muitas vezes ultrapassam o teto constitucional. Relatórios recentes revelam que uma expressiva maioria de membros do Ministério Público do Rio (MPRJ) […]

Resumo

Salários milionários no Rio: ‘Penduricalhos’ superam teto constitucional em órgãos públicos

A remuneração de servidores públicos no Rio de Janeiro tem sido impulsionada por uma série de gratificações e indenizações, conhecidas como ‘penduricalhos’, que muitas vezes ultrapassam o teto constitucional. Relatórios recentes revelam que uma expressiva maioria de membros do Ministério Público do Rio (MPRJ) e do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) recebem valores líquidos significativamente superiores ao limite estabelecido.

Em novembro do ano passado, por exemplo, 88,6% dos procuradores e promotores do MPRJ tiveram salários líquidos acima de R$ 100 mil. Esse cenário se repete em outros meses, com percentuais que chegam a 93,2%, indicando que a prática não é um evento isolado.

A situação é semelhante no Tribunal de Justiça do Rio, onde um desembargador registrou um salário líquido de R$ 287.189,87 em novembro. A pesquisa nos portais de transparência demonstra que esses valores elevados são, em grande parte, compostos por verbas eventuais e indenizatórias, que não entram no cálculo do teto constitucional.

MPRJ: Quase 90% dos membros recebem acima de R$ 100 mil líquidos

A folha de pagamento do Ministério Público do Rio (MPRJ) de novembro de 2025 expôs que 791 dos 892 procuradores e promotores listados receberam mais de R$ 100 mil líquidos. Desses, 65 ultrapassaram os R$ 150 mil, e três chegaram a ter mais de R$ 200 mil depositados em suas contas. Essa tendência se manteve em meses anteriores, com percentuais de 93,2% em outubro e 91% em setembro.

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No contracheque de dezembro, o percentual de servidores com remuneração líquida acima de R$ 100 mil atingiu 90%. Neste mês, os valores foram ainda maiores devido a gratificações natalinas, com 101 indivíduos recebendo mais de R$ 200 mil. Apesar de seus salários brutos base estarem entre R$ 37 mil e R$ 41 mil, abaixo do teto constitucional, a soma das verbas extras elevou significativamente a remuneração final.

TJRJ: Desembargador recebe R$ 287 mil com ‘vantagens eventuais’

O Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) também apresenta altos rendimentos. Um desembargador teve o maior salário líquido registrado em novembro de 2025, alcançando R$ 287.189,87. Desse valor, R$ 266.311,05 foram classificados como “vantagens eventuais”, que podem incluir adicionais noturnos, gratificações de férias e auxílios diversos.

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A pesquisa nos portais de transparência revela que a rubrica “indenizações” no TJRJ é genérica, dificultando a identificação exata de todos os benefícios pagos. Em novembro, 464 membros e servidores tiveram rendimento líquido acima do teto, com sete deles superando a marca de R$ 100 mil.

Gratificações por acúmulo: Mecanismo legal burlado

Um levantamento da Transparência Brasil, com base em dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), apontou pagamentos de R$ 100.526.735,93 em 2025 a título de “gratificação por exercício cumulativo” pelo TJRJ. Essa gratificação, prevista em lei federal, deveria ser submetida ao teto constitucional.

No entanto, o mecanismo foi adaptado para licença compensatória e, quando não usufruída, é paga como indenização, ficando fora do teto. Juliana Sakai, diretora executiva da Transparência Brasil, critica essa prática, chamando-a de “corrida atrás de mais penduricalhos” que gera um “efeito cascata” na administração pública.

STF e a revisão dos ‘penduricalhos’

Em fevereiro, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a suspensão e revisão de “penduricalhos” do serviço público não previstos em lei. A decisão visa coibir práticas que buscam contornar o teto constitucional. Dino citou o MPRJ, alertando sobre novos pagamentos e a necessidade de fiscalização pelos conselhos nacionais.

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Uma pesquisa anterior da Transparência Brasil já indicava que, em 2024, todos os membros do MPRJ receberam salários acima do teto constitucional vigente na época. Um caso exemplar é o de um procurador aposentado que, em novembro de 2025, recebeu R$ 108.049,94 líquidos, com a maior parte em indenizações, além de um segundo contracheque por um cargo de confiança.

Especialistas e órgãos públicos se manifestam

O economista André Luiz Marques, do Insper, sugere que leis que amparam alguns “penduricalhos” poderiam ser consideradas inconstitucionais, mas alerta para a complexidade e possíveis resistências. O Projeto de Lei Orçamentária Anual (Ploa) de 2026 do Rio de Janeiro mostra que o TJRJ é o órgão que mais deve gastar com pessoal e encargos, consumindo 97,7% de seu orçamento.

O MPRJ afirmou “observância à legalidade” em suas despesas, e o TJRJ declarou que “todos os pagamentos realizados […] têm estrito amparo legal”. A Defensoria, a Câmara Municipal, o TCE-RJ, o governo do estado e a prefeitura do Rio também se pronunciaram, garantindo conformidade com a lei e anunciando procedimentos de apuração e revisão conforme as orientações judiciais.

Fonte: O Globo

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