Rio de Janeiro celebra 461 anos com acervo que conta sua trajetória
O aniversário de 461 anos do Rio de Janeiro é uma oportunidade para mergulhar na rica história da cidade através de objetos que testemunharam momentos cruciais. De instrumentos musicais a artefatos de eventos marcantes, cada peça evoca narrativas sobre a boemia, a política, a cultura e as transformações sociais que moldaram a capital fluminense.
Historiadores destacam como o acervo de museus e instituições pode oferecer um olhar único sobre o passado e o presente do Rio. Esses itens, muitas vezes esquecidos, são elos importantes na corrente da memória carioca, ajudando a compreender a identidade e o futuro da cidade.
O livro “História do Rio de Janeiro em 45 objetos”, lançado em 2019, serve como um guia para essa jornada. A pedido do O Globo, os autores revisitaram a obra, adicionando novas peças que enriquecem ainda mais o panorama histórico e cultural do Rio de Janeiro.
Objetos que ecoam a alma carioca
O violão de Cazuza, guardado no Museu Histórico Nacional, seria a voz da boemia e do rock brasileiro dos anos 1980, embalando a redemocratização do país. A lanceta de vacinação, de 1904, traz à tona o pavor da Revolta da Vacina e a luta pela saúde pública. Já a escultura de dragão, remanescente das primeiras escolas públicas do Império, sussurraria sobre as conversas infantis do século XIX.
Outro objeto emblemático é o molde da cabeça do Cristo Redentor, criado por Paul Landowski por volta de 1920. Ele simboliza a mobilização social em torno da construção do monumento e a transição entre a separação entre Igreja e Estado. A vitrine de madeira entalhada da Exposição Internacional do Centenário da Independência, em 1922, testemunha o desejo da cidade de projetar-se para o futuro.
Da moda à resistência: um mosaico de memórias
A saia de Carmen Miranda, inspirada nas cores tropicais e usada nos anos 1930, remete à fase áurea dos cassinos e ao amadurecimento da arte nacionalista e irreverente. A sandália de dedo, que se popularizou no Rio, tornou-se um símbolo de despojamento e identidade carioca, transcendendo a ideia de “chinelo de pobre” para se tornar um ícone de moda nacional.
Os estandartes abolicionistas da década de 1880, como os do Centro Abolicionista Ferreira de Menezes e da Caixa Emancipadora Joaquim Nabuco, presentes no Museu do Negro, são lembranças pungentes da luta pela liberdade. A mesa de madeira maciça da Câmara de Vereadores do Rio, onde foi apoiado o corpo do estudante Edson Luís em 1968, evoca a memória da resistência estudantil contra a ditadura militar.
O Rio em constante transformação
A bandeira da Mangueira de 2019, com a inscrição “Índios, pretos e pobres”, reflete a evolução das escolas de samba, que passaram a abordar questões sociais contemporâneas. Esse desfile demonstra como a cidade, mesmo em meio a desafios, continua a dialogar com sua história e a expressar suas complexidades.
Para a pesquisadora Maria Isabel Lenzi, esses objetos formam uma corrente de memória que conecta o Rio colonial à cena do rock, das revoltas populares à paisagem icônica. Sem essa conexão com o passado, a cidade e seus habitantes correm o risco de perderem parte de sua identidade e de sua capacidade de construir o futuro.
Fonte: O Globo
