Rocinha: De Comunidade a Cartão Postal, Turismo Inovador Atrai Milhares e Gera Renda
A Rocinha, maior favela do Brasil, está se reinventando como um vibrante polo turístico. A comunidade, antes marcada por estigmas, agora atrai milhares de visitantes com novidades como tours de drone, cerveja artesanal e o aplicativo Na Favela Turismo. Esse movimento impulsiona a economia local e fortalece a autoestima dos moradores, que se tornam protagonistas na narrativa de sua própria história.
O número de visitantes na Rocinha superou 41 mil em janeiro deste ano, um aumento de 37% em relação ao mesmo mês de 2025, segundo dados da prefeitura. O crescimento é ainda mais expressivo quando comparado a janeiro de 2024, com um salto de 97%. O fluxo de turistas nacionais e internacionais cresceu 34% no último ano, impulsionado especialmente pelo aumento de 93% de visitantes estrangeiros.
A fama da comunidade ganhou destaque internacional após a visita da cantora Rosalía, que participou de uma festa improvisada em uma laje familiar, batizada posteriormente de “Laje da Rosalía”. O evento impulsionou a popularidade do local como ponto turístico, exemplificando como experiências autênticas se tornam atrativos.
Novas Atrações e Tecnologia Impulsionam o Turismo Comunitário
Diversas inovações turbinam a experiência turística na Rocinha. O serviço de vídeo com drones e visitas a lajes para fotos com comes e bebes se tornaram queridinhos dos visitantes. O aplicativo Na Favela Turismo, lançado em 2025, cadastrou 40 mil visitantes em janeiro, um aumento de cinco vezes em relação ao ano anterior. O app oferece acompanhamento online e pontos de apoio durante os passeios a pé, de moto ou por trilhas, priorizando a segurança e a preservação da comunidade.
Renan Monteiro, idealizador do Na Favela Turismo, destaca a importância de validar os roteiros com a associação de moradores e a comunidade local. “Procuramos preservar a comunidade, mesmo fazendo um turismo imersivo, para que todos os visitantes conheçam a favela por inteiro e não superficialmente”, explica. Atualmente, o aplicativo conta com 3 mil guias cadastrados, sendo 280 guias locais para passeios a pé e 482 para passeios de moto.
Experiências Imersivas e Segurança Garantida
Os roteiros a pé geralmente iniciam na Gávea, com opções de transporte de moto até restaurantes no alto da comunidade, como o Mirante da Rocinha e o Novo Visual, pontos de partida para os tours. Turistas embarcam em motos nas proximidades da estação de metrô de São Conrado para passeios que incluem visitas a lojas de lembranças, à galeria Wark e apresentações de capoeira e passinho.
Guias locais, identificados por crachás e camisetas, acompanham os grupos. Muitos guias têm aprimorado suas habilidades com cursos de idiomas, como Filipe Diniz, que conversou com Rosalía em inglês e espanhol. “Com os guiamentos, a minha fluência melhorou”, conta Filipe, que ressalta a surpresa da cantora com a tranquilidade da favela.
A paraguaia Silvia Ferreira, 25, descreve a experiência na Laje Porta do Céu como “inesquecível”, elogiando a vista e o vídeo capturado por drone. A polonesa Aleksandra Kowalczyk, 38, que visitava o Rio pela primeira vez, expressou surpresa com a segurança: “Fiquei com um certo receio. Falaram que é perigoso. Mas foi tranquilo.” A paranaense Marielle Bottolo, 36, também se sentiu segura após reservar o tour por redes sociais.
Economia Local e Empreendedorismo em Ascensão
O turismo impulsiona a economia local, com cerca de 60 a 80 estabelecimentos de alimentação adaptados para receber visitantes. O mercado de aluguel de imóveis para temporada também cresceu, com diárias entre R$ 120 e R$ 300. Cláudia de Oliveira, 54, trocou a faxina pelo turismo, reformando uma casa para alugar e atuando como guia. “Nós é que temos que contar a nossa história, ser protagonistas da nossa história”, afirma.
Jucilene Pereira Diniz, 50, conhecida como Magrinha, é uma das quatro mulheres cadastradas no Na Favela Turismo para mototour. Após anos como empregada doméstica, ela vê no turismo uma oportunidade de realizar sonhos e se sente “uma grande mulher” com o novo ofício. Ela também está matriculada no EJA e faz curso de inglês.
O líder comunitário João Bosco de Castro espera ações concretas do poder público, como o reconhecimento institucional do turismo comunitário, capacitação profissional, melhoria da infraestrutura e fomento à economia local. “O turismo na Rocinha cresce porque é feito por moradores, para moradores, gerando renda, fortalecendo a autoestima local e apresentando a favela como território de cultura, inovação e potência econômica”, conclui.
Fonte: G1
