Alerta em Praias Brasileiras: Turismo de Massa Gera Conflitos e Superlotação
Enquanto o Brasil celebra recordes de visitantes internacionais, destinos turísticos populares como Porto de Galinhas (PE), Balneário Camboriú (SC) e os Lençóis Maranhenses (MA) acendem um sinal vermelho. A superlotação e a falta de planejamento adequado em períodos de alta temporada têm levado a cenas de desordem e conflitos, levantando preocupações sobre os impactos negativos do turismo de massa predatório.
Incidentes recentes, como agressões entre barraqueiros e turistas em Porto de Galinhas e Balneário Camboriú, evidenciam problemas estruturais. Especialistas apontam a carência de políticas públicas eficazes e o crescimento desordenado em pequenas cidades, que muitas vezes carecem de infraestrutura básica, como os principais vilões dessa situação.
Diante do cenário, diversas prefeituras têm buscado soluções. Em Porto de Galinhas, a exigência de consumação mínima nas praias foi proibida. Niterói (RJ) estabeleceu um teto para o aluguel de barracas, e cidades como Florianópolis (SC), Arraial do Cabo (RJ) e Ubatuba (SP) intensificaram a fiscalização. Em áreas de proteção ambiental, como Jericoacoara (CE) e Ilha Grande (RJ), taxas de visitação e estudos para limitar o número diário de turistas, como nos Lençóis Maranhenses, estão em pauta.
Crescimento Desordenado e Impactos Socioambientais
Porto de Galinhas, um antigo vilarejo de pescadores que se tornou um ícone do turismo, exemplifica o dilema. Apesar de o turismo impulsionar a economia local, com o município de Ipojuca ostentando o terceiro maior PIB de Pernambuco, problemas como saneamento básico deficiente, favelização e desordem urbana persistem. O urbanista Zeca Brandão relembra que, em 2005, já se identificava expansão urbana desordenada e carência de infraestrutura.
A situação se agrava com o aumento populacional e turístico. Em Ipojuca, a população saltou de menos de 50 mil para mais de 106 mil habitantes. Brandão ressalta que, em muitas cidades praianas, o controle urbano é inexistente e o poder público reage tardiamente, enquanto a infraestrutura para a população local, como saúde e educação, permanece deficiente.
Lençóis Maranhenses: Entre o Recorde de Visitas e a Preservação Ambiental
Nos Lençóis Maranhenses, Patrimônio Natural Mundial da UNESCO, o número de visitantes disparou. Em 2021, Santo Amaro, um dos municípios da região, recebeu 61 mil turistas, número que saltou para 297 mil no ano passado. O Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses viu suas visitas aumentarem 191% desde a pandemia. Essa massificação preocupa gestores, que estudam a implementação de um limite diário de visitas para evitar a contaminação do lençol freático e outros impactos ambientais.
Matteo Soussinr, proprietário de uma pousada sustentável em Santo Amaro, testemunha o crescimento acelerado e os sinais de alerta, como especulação imobiliária e acúmulo de lixo, que já afetaram outras cidades da região como Barreirinhas. Ele defende a necessidade de planejamento prévio para evitar que o desenvolvimento turístico se torne predatório.
Políticas Públicas e a Busca por Sustentabilidade
Mariana Aldrigui, pesquisadora em turismo da USP, critica a lentidão e o foco das políticas públicas brasileiras, que priorizam a divulgação de destinos em detrimento do ordenamento e desenvolvimento urbano. “Somos responsivos, sem planejamento prévio. Só resolvemos depois que alguma coisa deu errado”, afirma.
O Ministério do Turismo reconhece o desafio do turismo de massa e afirma atuar na promoção do “turismo responsável”, no fortalecimento da gestão dos destinos e na diversificação da oferta turística. Iniciativas como o Programa Lixo Zero e a atualização do Mapa do Turismo Responsável buscam mitigar os impactos negativos e promover um crescimento mais equilibrado e sustentável no setor.
Fonte: G1
