Lideranças religiosas protestam contra batistério público no Méier e denunciam falta de equidade
Um grupo de lideranças religiosas, incluindo representantes da Umbanda e do Candomblé, se manifestou na Praça Jardim do Méier, Zona Norte do Rio de Janeiro, contra a inauguração do primeiro batistério público do município. A estrutura, que conta com uma Bíblia cenográfica e uma cascata d’água, foi criticada por, segundo os manifestantes, privilegiar um único segmento religioso e utilizar verba pública de forma desigual.
Durante o ato, fiéis entoaram louvores e apresentaram cartazes, demonstrando seu descontentamento com a iniciativa. A ação levanta o debate sobre a destinação de recursos públicos e a necessidade de equidade no tratamento de todas as manifestações religiosas na cidade.
As críticas se estendem a outras ações recentes, como a montagem de um palco gospel no Réveillon, que está sob investigação do Ministério Público Federal por possível discriminação. Os líderes religiosos pedem que a Bíblia seja removida do batistério para que o espaço possa ser utilizado por outras crenças que também realizam ritos de purificação e batismo.
Críticas à destinação de verbas e pedido de inclusão
Pai Alex de Oxalá, coordenador do movimento Umbanda Rio, expressou sua insatisfação com a priorização de um único segmento religioso. “A gente só quer que todas tenham espaço. A questão são os valores envolvidos de uma monta absurda, que são direcionados especificamente a um tipo de tradição, um tipo de comunidade, visando esse tipo de eleitorado”, afirmou o sacerdote.
Ele ressaltou que igrejas evangélicas já possuem muitos recursos, e que o investimento público deveria ser direcionado a grupos mais vulneráveis e vítimas de intolerância. “As águas também são de todos e não só do segmento que teve o privilégio de ter o batistério exclusivamente para eles”, declarou Alex de Oxalá, convidando outras religiões de matriz africana a utilizarem o espaço.
Legado cultural e promessa de homenagem
Alex de Oxalá também destacou a importância cultural das religiões de matriz africana para a cidade, citando a origem da festa de Réveillon em Copacabana, idealizada pelo sacerdote Tata Tancredo. O prefeito Eduardo Paes, em resposta às críticas, pediu desculpas e anunciou a criação de uma estátua em homenagem a Tata Tancredo, buscando valorizar a ancestralidade africana.
Leonardo Mattos de Xangô, coordenador do Fórum dos Presentes de Iemanjá do Estado do Rio, criticou a ausência de verbas para os povos de terreiro na Lei Orçamentária Anual, contrastando com os altos valores destinados a outros eventos religiosos. Ele defendeu o equilíbrio e evitou a “tirania da maioria”.
Estranheza de evangélicos e foco em privilégios
Andressa Oliveira, integrante do Movimento Negro Evangélico, manifestou estranheza com a construção do batistério, afirmando que não houve demanda por ele. Ela apontou que a praça necessita de melhorias mais urgentes, como banheiros e bebedouros, e questionou o alto custo da obra. “Se algum cidadão tiver passando mal por causa do calor e precisar entrar nessa água, é proibido. Então, ele serve para que? Para nada”, disse.
Pai Marcelo de Xangô, presidente nacional do Instituto Carta Magna da Umbanda, reiterou que a manifestação não foi contra a construção em si, mas sim contra o privilégio concedido a um segmento religioso. “Ele fere a partir do momento em que passa a privilegiar uma religião em detrimento de outra. A questão não é o palco ou o batistério, é questão dos privilégios”, concluiu.
Fonte: Agência O Dia
