Centro do Rio revive história e cultura afro-brasileira com evento Zungu Camerino
O bairro do Centro do Rio de Janeiro foi palco, neste sábado (4), de uma vibrante celebração da cultura negra e da ancestralidade. O evento Zungu Camerino, realizado na sede da Associação Cultural Recreativa Filhos de Gandhi Rio, reuniu moradores, pesquisadores e representantes de instituições culturais em uma programação gratuita que teve como símbolo principal a distribuição de angu, alimento historicamente ligado à resistência da população negra.
A iniciativa buscou não apenas oferecer uma rica programação cultural, com apresentações de capoeira, roda de samba e a Charanga dos Filhos de Gandhi, mas também resgatar a memória dos antigos zungus. Esses espaços, fundamentais no século XIX, funcionavam como locais de acolhimento, convivência e preservação das tradições africanas.
Célio Oliveira, presidente dos Filhos de Gandhi Rio, destacou a importância do evento na região conhecida como Pequena África. “Estamos em um local por onde passaram mais de um milhão de africanos que chegaram ao Brasil em condição de escravidão. O Cais do Valongo era o palco dos horrores para essas pessoas, porque elas sabiam que, ao pisar ali, suas vidas jamais seriam as mesmas”, afirmou, ressaltando que a celebração representa uma vitória da memória sobre a dor e a alegria dos ancestrais.
A importância histórica dos ‘zungus’ e da Pequena África
O pesquisador e professor Luiz Espírito Santo, especialista na história da Pequena África, ressaltou o significado histórico do imóvel que abriga os Filhos de Gandhi. Ele explicou que o espaço, ao longo de aproximadamente 250 anos, pode ter servido como ponto de encontro para africanos recém-chegados durante o período escravista e, posteriormente, como um ‘zungu’.
“Um zungu era uma espécie de quilombo urbano onde negros livres, escravizados de ganho e fugitivos conviviam e encontravam proteção”, detalhou o professor. Para ele, a trajetória do imóvel simboliza a resiliência, a capacidade de reinvenção e reconstrução da população negra no Rio de Janeiro.
Resgate e valorização da identidade afro-brasileira
O evento também contou com a participação de Fátima Malaquias, que descreveu sua experiência como significativa. “Foi uma celebração que reuniu arte, cultura, ancestralidade e representatividade em um ambiente de muita troca e respeito”, disse. Ela enfatizou como eventos como esse fortalecem raízes, valorizam artistas e incentivam iniciativas que mantêm viva a identidade cultural brasileira.
A celebração, que terminou em clima de confraternização, reforçou o papel dos Filhos de Gandhi como um dos principais centros de preservação da memória afro-brasileira na região do Valongo, um local reconhecido pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade.
Fonte: G1
