Restaurante Didier fecha as portas em Ipanema e impulsiona discussão sobre diversificação geográfica da gastronomia carioca
O fechamento do restaurante Didier, um renomado estabelecimento de culinária francesa em Ipanema, após mais de um ano no local, reacendeu o debate sobre a concentração da alta gastronomia em poucos bairros da Zona Sul do Rio de Janeiro. O alto custo do aluguel, que chegou a R$ 25 mil para um espaço de 70m², foi o principal fator para a decisão do chef Didier Labbé.
A chef Kátia Barbosa, proprietária do Aconchego Carioca e Sofia, utilizou suas redes sociais para questionar a exclusividade de Ipanema, Leblon, Gávea e Jardim Botânico como redutos da gastronomia de ponta. Ela ressalta que o Rio de Janeiro é muito maior e possui um vasto potencial em outras regiões, incentivando chefs e empresários a explorarem novos territórios.
A proximidade com um público de alto poder aquisitivo e a visibilidade proporcionada por guias gastronômicos e mídia especializada são apontados como os principais atrativos dos bairros nobres. No entanto, o custo elevado desses endereços, com aluguéis que podem ultrapassar R$ 70 mil, torna a operação insustentável para muitos.
O potencial inexplorado de outras áreas da cidade
Kátia Barbosa defende que bairros como Flamengo, Laranjeiras, Glória e Catete, além de Botafogo, apresentam grande potencial gastronômico e já recebem clientes de Ipanema e Leblon em seus estabelecimentos. Ela argumenta que a vida fora do eixo tradicional da Zona Sul é vibrante e que basta ter coragem para explorá-la.
O chef Didier Labbé, que comanda o restaurante fechado, concorda com a colega e afirma que adora frequentar restaurantes na Zona Norte, como na Tijuca. Ele aponta a falta de valorização desses espaços como um dos principais desafios, mas não descarta a possibilidade de abrir um novo negócio em áreas como o Centro, Lapa ou Glória.
A influência dos guias gastronômicos e a busca por acessibilidade
Uma análise do Guia Michelin revela que a maioria dos estabelecimentos estrelados no Rio de Janeiro está concentrada na Zona Sul. Dos 28 restaurantes recomendados, apenas três estão fora desse circuito: dois em Santa Teresa e um no Centro, o Lilia. O chef Lucio Vieira, do Lilia, explica que a escolha do Centro foi motivada pelo aluguel significativamente mais barato em comparação com bairros da Zona Sul, além do fluxo de pessoas de empresas próximas.
Pedro Hermeto, proprietário do Aprazível em Santa Teresa há quase 30 anos, reforça a ideia de que a cidade é vasta e cheia de possibilidades. Ele destaca que a busca por imóveis com valores mais acessíveis em áreas novas é uma tendência natural, impulsionada também pela saturação e pelos altos custos da Zona Sul. Botafogo é citado como um exemplo de bairro que se tornou um polo gastronômico devido a preços mais convidativos.
A estratégia de “virar destino” e a invisibilidade de alguns bairros
Marcelo Torres, que possui estabelecimentos como o Giuseppe Grill no Leblon, Xian no Centro e Nolita na Barra da Tijuca, defende a exploração de diferentes regiões. Ele acredita que um produto gastronômico de qualidade pode se tornar um destino, independentemente de sua localização. O Xian, no Centro, é um exemplo de sucesso, atraindo público mesmo em uma área considerada menos badalada.
No entanto, Torres lamenta a falta de atenção e premiação que estabelecimentos localizados fora do eixo gastronômico tradicional, como os da Barra da Tijuca, acabam sofrendo. Ele expressa sua dificuldade em entender por que essa invisibilidade ocorre, apesar do potencial dessas regiões.
Adriana Veloso, do Pescados na Brasa, seguiu um caminho diferente e abriu uma filial no Leblon, mesmo com um aluguel três vezes maior. Ela explica que a decisão foi motivada pela demanda de clientes que frequentavam sua unidade no Riachuelo, mas que tinham dificuldade em se deslocar até lá devido ao trânsito. A filial visa atender essa clientela que prefere a conveniência da Zona Sul.
Fonte: G1
