Obras de edifícios de luxo paralisadas na Zona Sul do Rio geram revolta em compradores
Seis empreendimentos imobiliários de alto padrão, localizados em bairros nobres como Urca, Leblon e Gávea, no Rio de Janeiro, tiveram suas construções paralisadas. A situação tem gerado grande insatisfação entre os compradores, que relatam atrasos significativos, falta de comunicação e incerteza sobre a conclusão de seus imóveis. A empresa responsável alega dificuldades financeiras e falta de recursos para dar andamento às obras.
Compradores ouvidos pela reportagem demonstram revolta com os atrasos e com os termos de rescisão apresentados pela construtora Inti Empreendimentos. As acusações incluem falta de transparência sobre os motivos do adiamento, constantes mudanças no cronograma e ausência de respostas às tentativas de contato. Algumas famílias tiveram seus planos de vida adiados, como uma jovem grávida que aguarda a entrega de um apartamento na Gávea.
A situação afeta edifícios como o Sambaíba 323 (Alto Leblon), Haus (Botafogo), Roca (Urca) e Dumont (Gávea). Em alguns casos, como o do Roca, já foi decidido em assembleia que os próprios compradores deverão arcar com os custos para a conclusão da obra. O Urbano, na Urca, já foi entregue após os clientes assumirem os custos adicionais. Uma reunião entre compradores e o sócio-diretor da Inti está marcada para discutir os próximos passos.
Falta de recursos e modelos de contrato sob escrutínio
André Kieffer, sócio-diretor da Inti, admitiu as dificuldades financeiras: “A gente, de fato, enfrentou e enfrenta problemas financeiros e não tem como aportar mais as obras. Estávamos cortando, elas já eram deficitárias, já tinham superado o custo. Estávamos colocando (verba) da própria empresa, mas não tivemos mais capacidade financeira. Faltaram recursos”.
A questão do modelo de contratação também surge como ponto de discórdia. Enquanto Kieffer afirma que os contratos foram assinados no modelo de incorporação por administração, alguns compradores, como uma família do Mato Grosso do Sul, contestam, afirmando que o contrato assinado não especifica essa modalidade, mas sim incorporação.
Roberto Bigler, vice-presidente de condomínios do Secovi Rio, explica que, no modelo de administração, a responsabilidade pelos custos e riscos da obra é compartilhada com o comprador, o que pode aumentar sua exposição financeira. “No modelo de contrato por administração, os próprios adquirentes assumem os riscos da obra. Se o incorporador não consegue continuar, eles podem deliberar em assembleia e tocar a obra até o fim”, detalha.
Mercado de luxo e riscos para o consumidor
Adriana Socci Barbosa, fundadora da ASB Soluções Imobiliárias, aponta que o grande número de lançamentos e a intensa publicidade no mercado de luxo podem criar uma falsa percepção de alta demanda. “Como há um excesso de lançamentos, há uma alta de apartamentos não vendidos. Faz-se um alarde sobre as metragens quadradas, sobre os valores, mas muitos encalham”, observa.
A Lei do Consumidor também entra em jogo. Bigler ressalta que, embora a Lei 4.591 regule os contratos de incorporação, a Lei do Consumidor também se aplica, protegendo o comprador que é tecnicamente hipossuficiente. “O empreendedor e o incorporador não é hipossuficiente. Ele faz um estudo de viabilidade para o empreendimento. Então, não é muito razoável transferir essa responsabilidade para o consumidor final”, afirma.
Obras paralisadas e o impacto na vida dos compradores
Algumas obras já ultrapassam cinco meses de atraso, e o número de reclamações tem aumentado desde dezembro do ano passado. Um comprador que reside no exterior e já quitou integralmente seu apartamento na Gávea está correndo contra o tempo para participar de reuniões e evitar prejuízos.
Em Botafogo, as redes de proteção do edifício Haus já apresentam rasgos e exposição de materiais, indicando falta de manutenção. No Alto Leblon, a construção do Sambaíba 323 mal saiu do reboco. A situação gera grande angústia e incerteza sobre o futuro dos investimentos feitos pelos compradores.
Fonte: O Globo
