Estudo do Unicef e Fogo Cruzado Aponta Crise no Transporte Escolar Carioca
A rotina de violência armada no Rio de Janeiro tem um impacto direto e alarmante na educação: 95% das escolas públicas da cidade registraram interrupções no transporte de alunos em seu entorno entre janeiro de 2023 e julho de 2024. O estudo “Percursos interrompidos: efeitos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro”, realizado em parceria pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o Instituto Fogo Cruzado e o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni-UFF), aponta que cerca de 190 mil estudantes tiveram o acesso às escolas comprometido.
As interrupções incluem bloqueios de vias, tiroteios, instalação de barricadas e operações policiais, forçando alterações de horários e rotas em ônibus, BRTs, trens e metrô. A pesquisa analisou 2.228 interrupções no transporte público causadas por episódios de violência armada no período, evidenciando um cenário de insegurança que se tornou rotina para a comunidade escolar.
A dificuldade de locomoção afeta diretamente o direito à educação, aprofundando desigualdades sociais. O estudo ressalta que as escolas mais afetadas estão localizadas em áreas de maior vulnerabilidade socioeconômica e com maior concentração de alunos negros, o que agrava a exclusão educacional.
Barricadas e Operações Policiais São as Principais Causas de Interrupção
Dentre as 2.228 interrupções registradas, a instalação de barricadas nas vias foi a principal causa (32,4%) para a paralisação do transporte escolar em horários letivos. Logo em seguida, aparecem as operações policiais (22,7%), seguidas por manifestações (12,9%), ações criminosas (9,6%) e registros de tiros ou tiroteios (7,2%).
Escolas em Zonas Norte e Oeste São as Mais Afetadas
O levantamento identificou 120 escolas com risco elevado de terem o transporte de seus alunos impactado pela violência. A maioria dessas unidades está concentrada nas Zonas Norte (71) e Oeste (48) do Rio de Janeiro. Os bairros da Penha (296 interrupções), Jacarepaguá (108) e Bangu (89) lideram o ranking de locais mais atingidos, áreas conhecidas por confrontos recorrentes entre grupos criminosos e operações policiais.
Impacto na Frequência e Desempenho Escolar
A dificuldade de chegar à escola não é um fato isolado, mas uma barreira recorrente. Relatos de pais e alunos confirmam a perda de aulas e atrasos frequentes. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, 590 escolas foram fechadas pelo menos uma vez em 2023 devido a operações policiais e confrontos, e outras 473 em 2024. Estudos anteriores já demonstravam que crianças e adolescentes expostos à violência armada crônica tendem a abandonar os estudos e ter pior desempenho escolar.
Propostas para Mitigar o Problema
O estudo sugere medidas como a integração do monitoramento de incidentes em tempo real, a criação de planos com rotas alternativas e a garantia de proteção aos alunos. A coordenação permanente entre os sistemas de transporte, segurança e políticas sociais é apontada como fundamental para enfrentar o problema. As empresas de ônibus também relatam um alto número de veículos vandalizados e utilizados como barricadas, evidenciando a gravidade da situação no transporte público.
Fonte: G1
