Alerj Libera Rodrigo Bacellar e Escancara Crise Política e de Segurança no Rio de Janeiro
A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) votou pela soltura do seu presidente, o deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil), preso pela Polícia Federal sob suspeita de envolvimento com o vazamento de uma operação contra o ex-deputado TH Joias, acusado de intermediar negócios ilícitos para o Comando Vermelho. A decisão, que contou com 42 votos favoráveis dos 65 parlamentares presentes, seis a mais do que o mínimo necessário, representa mais um episódio de constrangimento para o cenário político fluminense, historicamente marcado por escândalos.
Este caso se soma a um retrospecto alarmante de corrupção no Rio de Janeiro, onde seis ex-governadores foram presos, denunciados ou afastados por crimes em menos de duas décadas. Figuras como Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Wilson Witzel e Moreira Franco ilustram um padrão de desvio e ilegalidade que, no estado, parece ter se tornado rotina.
No entanto, o caso Bacellar aponta para um problema ainda mais grave: a captura explícita da política estadual pelo crime organizado. A Alerj, em particular, tem sido um palco recorrente para escândalos, desde o esquema do “mensalinho” revelado pela Operação Furna da Onça. Deputados foram detidos por ligações com milícias, extorsão, lavagem de dinheiro e até envolvimento indireto em homicídios, como no caso de Domingos Brazão, apontado como mandante do assassinato de Marielle Franco.
Crime Organizado se Imbrica na Estrutura do Estado
A acusação contra Rodrigo Bacellar, de vazar informações sigilosas, orientar investigados a destruir provas e proteger políticos ligados a organizações criminosas, sugere que a fronteira entre a política e o crime deixou de existir. A revogação de sua prisão demonstra um Legislativo que não apenas ignora a gravidade da situação, mas a normaliza como parte de seu funcionamento. Grupos armados, milícias e facções criminosas se entrelaçam na estrutura do Estado, influenciando decisões orçamentárias, de segurança e articulações legislativas, em um cenário onde, em muitas regiões, o crime exerce autoridade efetiva com apoio ou cumplicidade política.
Um Fenômeno que Transcende o Rio de Janeiro
Estudos recentes indicam que o controle territorial e a dominação de facções em periferias são apenas uma etapa. O passo seguinte é garantir representatividade política, influência em eleições e nomeações públicas, e até controle sobre forças de segurança. Essa sobreposição de “governança estatal” e “governança paralela” é evidente em regiões onde o Estado falha ou é conivente, um fenômeno que não se restringe ao Rio, mas que nele encontra manifestações particularmente alarmantes.
A Necessidade de Rigor Institucional
A resposta adequada para combater essa infiltração criminosa na política não é a condescendência, como demonstrado pela Alerj, mas sim o rigor institucional. Investigações independentes, punição exemplar e a convicção de que problemas dessa magnitude exigem firmeza são essenciais. O Rio de Janeiro precisa restaurar a autoridade do Estado sobre o crime, sob o risco de permanecer submetido a ele, tanto nas ruas quanto no coração do poder político, um cenário assustador para a democracia.
Fonte: O Globo
