Rio de Janeiro: A Política como Método de Colapso Institucional
A recente inelegibilidade de Cláudio Castro pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não marca o fim de um ciclo, mas a confirmação de um padrão preocupante no Rio de Janeiro. A tentativa de renúncia do governador antes do julgamento evidenciou a crença de que o poder pode negociar e contornar as regras, uma visão que a decisão do TSE refutou.
A condenação de Castro e, simultaneamente, de Rodrigo Bacellar, figura central no Legislativo fluminense, revela um arranjo institucional onde a linha entre governar e capturar o Estado se dissolve. O resultado é um governo que desmorona internamente, deixando um legado de instabilidade e incerteza política, que não são efeitos colaterais, mas sintomas de um sistema disfuncional.
O estado fluminense se tornou um laboratório extremo da normalização da exceção, onde quedas de governadores e alianças na fronteira da legalidade se tornaram rotina. A crise, nesse contexto, não interrompe o sistema, mas o constitui. A trajetória recente do Rio de Janeiro demonstra a acumulação de padrões, não apenas de escândalos, que persistem mesmo após decisões judiciais.
Uso da Máquina Pública como Prática Eleitoral
A decisão do TSE reafirmou um diagnóstico incômodo: o uso da máquina pública como instrumento eleitoral deixou de ser uma exceção para se tornar uma prática recorrente. A condenação de Cláudio Castro e Rodrigo Bacellar simultaneamente atinge o Executivo e o Legislativo, indicando uma lógica de poder que parece operar como um sistema, dissolvendo as fronteiras entre governar e capturar o Estado.
A Crise como Sistema, Não como Ruptura
O Rio de Janeiro exemplifica um fenômeno mais amplo de normalização da exceção, onde crises e irregularidades deixam de ser rupturas para se tornarem rotina. A situação atual expõe como a crise, em vez de interromper o sistema político, se tornou parte integrante dele. A sucessão improvisada e a instabilidade são sintomas de um modo de funcionamento estabelecido.
Individualização versus Estrutura de Poder
Embora o discurso público tenda a individualizar responsabilidades, focando em erros e ilegalidades, essa abordagem é insuficiente. O problema reside não apenas nas ações dos atores, mas na estrutura que continuamente os produz e recompensa, tornando-os, por fim, descartáveis. A decisão do TSE pode afastar nomes, mas não altera o modo de funcionamento que permitiu tais práticas.
O Futuro Incerto do Rio de Janeiro
A questão que permanece não é quem será o próximo a cair, mas o que, de fato, ainda está de pé no cenário político fluminense. A inelegibilidade de Cláudio Castro e Rodrigo Bacellar, embora significativa, não resolve os problemas estruturais que levaram a essa situação. A busca por um novo modelo de governança e a redefinição das relações entre poder e legalidade são urgentes.
Fonte: O Globo
