Pesquisa “Sonhos da Favela” Revela Prioridades e Desafios da População em Comunidades Urbanas
A pesquisa “Sonhos da Favela”, realizada pelo Data Favela, traz um retrato multifacetado da vida em comunidades urbanas brasileiras, desmistificando estereótipos e evidenciando as aspirações e necessidades urgentes de seus moradores. O estudo, que abrangeu as cinco regiões do país com ênfase em Rio de Janeiro e São Paulo, buscou dar voz a quem vive o cotidiano das favelas.
Com 4.471 entrevistas a maiores de 18 anos, realizadas em dezembro de 2025, a pesquisa se propõe a ser um convite ao poder público e à sociedade para reconhecer e enfrentar as negligências que afetam diretamente a qualidade de vida nas favelas. A análise destaca que, apesar dos desafios estruturais, os moradores possuem projetos de futuro e buscam dignidade e bem-estar básico.
As aspirações para 2026 são claras: uma casa melhor lidera os planos com 31%, indicando a necessidade premente por moradia digna. Em seguida, a busca por saúde de qualidade aparece com 22%, seguida pelo desejo de ver os filhos na universidade (12%) e a segurança alimentar (10%). Esses dados reforçam a urgência de políticas públicas focadas em infraestrutura e acesso a serviços essenciais.
Infraestrutura e Bem-Estar: As Prioridades Territoriais
Quando questionados sobre as mudanças desejadas em seus territórios para 2026, os moradores das favelas colocaram o saneamento básico como prioridade (26%). A educação (22%) e a saúde (20%) também figuram entre os anseios mais fortes, seguidos por melhorias no transporte (13%) e no meio ambiente (7%). A infraestrutura precária em áreas como esporte, lazer e cultura foi avaliada como ruim ou muito ruim por 35% dos entrevistados.
Segurança Pública: Confiança Baixa e Medo Presente
A questão da segurança pública revela um cenário de desconfiança. Apenas 27% dos moradores confiam na Polícia Militar para proteção contra a violência, enquanto a Polícia Civil é citada por 11%. Surpreendentemente, 36% afirmaram não confiar em nenhuma das instituições. A presença policial nas comunidades gera reações diversas: 24% optaram por não responder, 25% não veem alteração na sensação de segurança, 13% sentem medo, e apenas 22% se sentem mais seguros.
O desejo de “ir e vir com tranquilidade” foi apontado por 47% como a principal aspiração em relação à segurança, evidenciando que o futuro ainda é moldado pela sobrevivência e pelo medo. “Pesquisas como essa funcionam como um megafone para ampliar a voz que a favela já tem”, afirma Cléo Santana, copresidente do Data Favela.
Desafios de Raça e Gênero: Inseguranças e Demandas Específicas
A pesquisa também aborda os desafios de raça e gênero. Cerca de 50% dos entrevistados acreditam que a cor da pele impacta nas oportunidades de trabalho. Para as mulheres, a violência doméstica e o feminicídio são os principais desafios (70%), seguidos pela dificuldade de inserção no mercado de trabalho (43%) e o apoio no cuidado com os filhos (37%).
As políticas públicas mais urgentes para as mulheres incluem programas de inserção no mercado de trabalho (62%), campanhas contra o machismo (44%), serviços de atendimento 24h (43%) e atenção à saúde da mulher (39%).
Perfil Socioeconômico: Jovens, Negros e Trabalhadores
A população de favelas é majoritariamente jovem (25% entre 18 e 29 anos), negra (82% se declaram pardos ou pretos) e trabalhadora. Grande parte dos entrevistados (58%) tem entre 30 e 49 anos. Cerca de 60% são mulheres e 75% se declaram heterossexuais. Economicamente, 60% ganham até um salário mínimo mensal, e 56% não recebem nenhum benefício do governo, sendo o Bolsa Família/Auxílio Brasil o mais citado entre os que recebem (29%).
Fonte: Data Favela
