O golpe continuado: como a ditadura de 1964-1985 ainda afeta o Rio de Janeiro
O golpe militar de 1964, que instaurou um regime autoritário no Brasil até 1985, deixou marcas profundas que ecoam na política e na sociedade do Rio de Janeiro até os dias atuais. A tese central do livro “O golpe continuado”, do professor Lincoln Penna, aponta que os efeitos desse período sombrio continuam a influenciar a crise política, a violência e as estruturas de poder no estado.
A análise de Penna, divulgada em conversa em seu canal no YouTube, destaca como o desmonte neoliberal promovido por diversos governos após a redemocratização, incluindo os de Collor, Itamar Franco, FHC, Temer e Bolsonaro, minou os avanços conquistados pela Constituição de 1988. Esses governos, segundo o autor, priorizaram interesses imperialistas e do latifúndio em detrimento da soberania nacional, do fortalecimento da empresa nacional, da proteção social e dos direitos humanos, pilares democráticos que buscavam superar a ordem fascista implantada em 1964.
Atualmente, um debate no Supremo Tribunal Federal sobre eleições diretas ou indiretas para cargos de governador e vice-governador no Rio de Janeiro, em decorrência de vacâncias, evidencia a instabilidade política do estado. Essa situação remonta a um passado onde o Rio de Janeiro, antiga capital colonial, imperial e republicana, foi palco de um dos períodos mais duros da ditadura militar.
O Rio de Janeiro como alvo da repressão ditatorial
Durante o regime militar, o Rio de Janeiro, especialmente a antiga Guanabara, sofreu intensamente com perseguições, prisões, desaparecimentos e mortes de opositores políticos. A cidade, mesmo após a transferência da capital para Brasília em 1960, manteve-se como um centro de poder e resistência, o que intensificou a repressão.
Essa repressão se manifestou em um processo de limpeza étnica contra negros e nordestinos, além de uma brutal perseguição a lideranças comunitárias e militantes de esquerda. O perfilamento racial nas periferias e na Baixada Fluminense era uma prática comum das forças de segurança.
Esquadrões da Morte e a origem das milícias
Os chamados “esquadrões da morte” disseminaram o terror e o medo, alimentados pela mídia da época com lendas urbanas. Essas ações terroristas deram origem, décadas depois, ao fenômeno das milícias no Rio de Janeiro, que hoje controlam territórios urbanos e exercem forte pressão sobre a política local, com a participação de agentes de segurança pública.
Investigações apontam uma forte ligação entre os agentes da repressão da ditadura e o jogo do bicho, sugerindo que essa proximidade pavimentou o caminho para a infiltração do crime organizado no poder público e na política fluminense, facilitando a eleição de parlamentares ligados a atividades criminosas.
A fusão forçada e a resistência brizolista
Em 1975, a ditadura impôs a fusão dos Estados da Guanabara e do antigo Rio de Janeiro, sem consulta popular. Essa medida permitiu que a oligarquia do antigo estado se sobrepusesse à organização política do novo estado, consolidando estruturas de poder questionáveis.
Apesar do fim formal da ditadura em 1985, a resistência ao regime se manifestou com a eleição de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro em 1982. O governo Brizola buscou implementar projetos transformadores, como os CIEPs, e tentou estabelecer uma polícia cidadã, focada na proteção da população e não na repressão racializada.
O legado nefasto da eleição de Moreira Franco
A eleição de Moreira Franco em 1986, com o apoio de forças conservadoras e setores de esquerda, marcou o início de uma “tragédia” para o Rio de Janeiro. Sua vitória, prometendo o fim da violência em seis meses, abriu portas para a aproximação do crime organizado com a política e fortaleceu o fascismo, conforme aponta a análise, culminando na ascensão de figuras políticas ligadas a esse espectro.
A lembrança do ministro Flávio Dino sobre a prisão e cassação de governadores e deputados do Rio de Janeiro nos últimos anos, durante julgamento no STF, não deve ser vista como constrangimento, mas como reflexo da profunda influência da ditadura de 1964-1985 na política do estado. O golpe, segundo a análise, “continua firme no Brasil”, com seus agentes atuando livremente e cada vez mais envolvidos em atividades ilícitas, um padrão que se originou naquele período autoritário.
Fonte: G1
