Paraty: O Lado Sombrio do Paraíso Turístico
A beleza histórica e natural de Paraty, Patrimônio Mundial da UNESCO, contrasta com a realidade de violência e marginalização enfrentada por moradores de comunidades caiçaras. A expansão do Comando Vermelho tem transformado bairros pacatos em cenários de medo, com expulsões, tráfico de drogas e um clima de abandono que afeta a vida cotidiana e a economia local.
A Praça da Paz, antes um ponto de encontro para crianças e jovens, hoje reflete o abandono e a insegurança que se instalaram na região. Moradores relatam um clima de medo constante, com tiroteios e a perda de amigos e familiares para a violência ligada ao tráfico, evidenciando um problema que se arrasta por mais de 15 anos.
A situação se agrava com a falta de políticas públicas eficazes e a crescente dificuldade de acesso a serviços básicos, como transporte público. A presença da facção criminosa não se limita às comunidades, alcançando também áreas turísticas, onde há relatos de extorsão a barqueiros, donos de estacionamento e até mesmo turistas.
Comunidades Caiçaras Sob Domínio do Tráfico
As comunidades da Ilha das Cobras e Mangueira, próximas ao Centro Histórico, foram gradualmente invadidas por facções criminosas entre 2010 e 2011. Inicialmente, o Comando Vermelho atuava na Ilha das Cobras e o Terceiro Comando Puro na Mangueira, gerando confrontos violentos que vitimaram muitos jovens.
Alice, moradora da Mangueira, relata a perda de amigos e a constante sensação de perigo. “Minha casa vivia cheia de amigos. Ela foi se esvaziando, não sobrou ninguém”, desabafa. Ela descreve o medo de ficar presa em tiroteios e encontrar pessoas mortas pelo caminho, uma realidade dura que contrasta com a imagem turística da cidade.
Em 2021, o Comando Vermelho assumiu o controle total da Mangueira, intensificando as expulsões de moradores. Alice e sua família foram forçados a deixar suas casas e o comércio que possuíam, perdendo tudo em um prazo de 24 horas. “Saímos com a roupa do corpo e nossos cachorros. Foi muito duro”, conta, lamentando a falta de apoio e o sentimento de esquecimento.
Impacto no Comércio e na Segurança Pública
A expansão do Comando Vermelho em Paraty tem impactos diretos no comércio e na vida dos moradores. Jorge, também morador da Mangueira, relata a piora na segurança, com o aumento da venda de drogas nas ruas internas e a presença constante de adolescentes envolvidos com o tráfico. “Está muito ruim morar aqui. O tráfico está tomando tudo”, afirma.
Preocupado com o futuro de seus filhos, Jorge decidiu enviá-los para outro estado. Ele descreve como carros de turistas, os “bacanas”, entram nas comunidades para comprar drogas, movimentando grandes quantias de dinheiro. A insegurança afeta até mesmo o acesso a serviços básicos, como o transporte público, que em algumas localidades, como no Condado, já não acessa mais o interior dos bairros.
Turismo Ameaçado e Investigações em Andamento
A atuação do Comando Vermelho ultrapassou as fronteiras das comunidades, atingindo áreas turísticas como a Praia do Sono e Trindade. Há relatos de traficantes extorquindo barqueiros, donos de estacionamentos e cobrando indevidamente turistas pelo acesso aos locais. A situação, em alguns casos, foi resolvida pelos próprios caiçaras, que possuem laços familiares com os criminosos.
A 167ª Delegacia de Polícia investiga pelo menos seis casos relacionados à exploração territorial do Comando Vermelho em diversas localidades, incluindo Paraty-Mirim, Costeira e Ponta Negra. No entanto, a falta de depoimentos dificulta a conclusão das investigações. Há suspeitas de extorsão a empresas de turismo no Cais de Paraty, ponto de partida de passeios de escuna.
Reuniões e Reforço Policial
Diante da escalada da violência, uma reunião pública foi realizada na Câmara Municipal para discutir a falta de segurança, a ausência de um posto policial comunitário em Trindade e a atuação do ICMBio. O prefeito Zezé lamentou a falta de um juiz no município, enquanto o comandante da Segunda Companhia Independente de Polícia Militar anunciou um reforço de 90 agentes a partir de março.
Além da violência, moradores como Alice apontam outros problemas graves, como a alta nos aluguéis, que tornam a vida em Paraty inviável para a maioria, que ganha um salário mínimo. “Nós, paratienses, não temos acesso aos equipamentos culturais da cidade, ninguém frequenta o Centro Histórico por lazer, mas somos nós que fazemos com que funcione. Vivemos do lado de cá, à margem”, conclui Alice.
Fonte: G1
