Como o BOPE se tornou o BOPE: As raízes militares e a violência na tropa de elite do Rio de Janeiro

Como o BOPE se tornou o BOPE: As raízes militares e a violência na tropa de elite do Rio de Janeiro

A origem militar do BOPE e a lógica de guerra no policiamento do Rio A história do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) do Rio de Janeiro é marcada por uma origem ligada a táticas militares de guerra, que moldaram sua atuação e contribuem para explicar a alta letalidade policial na cidade. Desde sua concepção, […]

Resumo

A origem militar do BOPE e a lógica de guerra no policiamento do Rio

A história do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) do Rio de Janeiro é marcada por uma origem ligada a táticas militares de guerra, que moldaram sua atuação e contribuem para explicar a alta letalidade policial na cidade. Desde sua concepção, a unidade parece ter sido concebida sob uma lógica de extermínio, e não de policiamento.

Um episódio emblemático dessa formação é a história de uma jiboia mantida em uma unidade policial nos anos 1980, utilizada para coagir presos. A cobra, capturada durante um treinamento de sobrevivência na selva, era parte do Grupo de Operações Especiais (GOESP), precursor da atual Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil e, indiretamente, do próprio BOPE.

Essa genealogia, que remonta a treinamentos de guerra e a figuras controversas como Otto Skorzeny, um oficial nazista, revela a influência de doutrinas antiguerrilha na formação das forças de segurança do Rio de Janeiro. A inspiração não era o combate ao crime comum, mas sim a aplicação de táticas de guerra em território nacional.

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Raízes na doutrina de Segurança Nacional e o GOESP

A criação do Curso de Operações Especiais pelo Exército em 1957, alinhado à Guerra Fria e à Doutrina de Segurança Nacional, estabeleceu as bases para a formação de unidades com foco em combate irregular. A Escola Superior de Guerra e a ênfase na identificação de inimigos internos foram cruciais nesse processo.

O GOESP, fundado em 1969 sob a gestão do general Luís de França Oliveira, um estudioso de guerra psicológica, foi explicitamente criado para combater a subversão e a guerrilha. Sua atuação se estendeu para além de militantes políticos, sendo empregado em operações nas favelas e no combate a criminosos comuns, aplicando técnicas militares no policiamento diário.

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O NuCOE e a transição para o BOPE

Mesmo após o fim da resistência armada à ditadura, a mentalidade de guerra irregular persistiu. Em 1978, o coronel Amêndola, ex-integrante do GOESP, propôs a criação do Núcleo da Companhia de Operações Especiais (NuCOE), que daria origem ao BOPE. O primeiro curso de formação dessa nova unidade ainda se chamava “Curso de Operações Contraguerrilha”.

Essa herança militar moldou o BOPE e a Core, unidades concebidas para a eliminação de inimigos em cenários de guerra, e não para a prevenção e repressão de crimes convencionais. As operações em comunidades, como o massacre nos complexos da Penha e do Alemão, e casos como a morte de Hélio Ribeiro, evidenciam a aplicação contínua dessa lógica, muitas vezes com impunidade para os agentes.

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A tese da guerra civil e a flexibilização da letalidade

Atualmente, a discussão sobre a classificação do cenário carioca como um “Conflito Armado Não Internacional” (guerra civil) ganha força, impulsionada por ex-integrantes do BOPE e por uma agenda transnacional de combate ao “narcoterrorismo”. Essa tese, que busca inserir a atuação policial sob o guarda-chuva da segurança nacional, ignora a eficácia comprovada dessa abordagem, que apenas aprofunda a violência.

A flexibilização das “regras de engajamento” e a possibilidade de suspensão de direitos fundamentais, como a inviolabilidade domiciliar, são propostas que refletem a persistência da lógica de guerra. A absolvição quase unânime de policiais em casos de letalidade, como demonstram pesquisas e a história do BOPE, sugere que a unidade opera fora dos limites impostos pelo Estado, reforçando um ciclo de violência que se perpetua.

Fonte: g1.globo.com

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