O Rio de Janeiro sob os Holofotes Globais: Um Retrato de Lucros e Perdas Culturais
O Rio de Janeiro viveu um início de 2026 imerso em um fluxo intenso de turistas internacionais. A cidade, vista como um objeto de desejo global, atraiu milhões de visitantes, injetando bilhões na economia. No entanto, por trás dos números positivos, esconde-se um debate sobre a preservação da identidade cultural diante da crescente demanda por uma imagem turística simplificada e esteticamente agradável.
Esse fenômeno, apelidado de “Brasilcore”, descreve um processo onde a cultura local é selecionada, filtrada e adaptada para o consumo externo. Cores vibrantes, paisagens exuberantes e a alegria superficial ganham destaque, enquanto questões sociais complexas, desigualdades e a história profunda da cidade são deixadas de fora do enquadramento.
A análise sugere que o Rio corre o risco de se transformar em uma mera representação, uma linguagem publicitária ajustada para não incomodar. A cultura, ao perder sua imprevisibilidade e profundidade, pode se tornar apenas um ornamento, uma imagem descartável, em detrimento de sua essência viva e multifacetada.
O “Brasilcore”: Uma Imagem Selecionada para o Turismo
Em 2025, o Brasil registrou um expressivo aumento no turismo internacional, com cerca de 6,9 milhões de visitantes, um crescimento superior a 8% em relação ao ano anterior. O Rio de Janeiro foi um dos principais destinos, impulsionado por eventos culturais e uma forte exposição midiática. O setor turístico injetou aproximadamente US$ 7 bilhões na economia nacional, gerando empregos e movimentando diversos setores.
Contudo, essa expansão traz consigo um alerta. O termo “Brasilcore” aponta para um processo de seleção e recorte da cultura, onde o olhar externo privilegia elementos visuais e festivos, ignorando as complexidades e os conflitos inerentes à realidade brasileira. A cultura se torna reconhecível na forma, mas esvaziada de seu conteúdo original.
Rio de Janeiro: Da Rua Viva ao Aquário Cultural
A comparação do Rio de Janeiro atual com a descrição de cronistas do início do século XX, como João do Rio, revela uma transformação significativa. Onde antes havia a rua como palco de encontros, contradições e imprevisibilidade, hoje se observa uma experiência curada e filtrada para o turista. A cidade parece ter alguns de seus “nervos anestesiados” para não perturbar o visitante.
A metáfora do aquário ilustra bem essa mudança. O mundo observa a beleza aparente, os peixes coloridos e o movimento suave da água, sem perceber os filtros, os limites de vidro e o isolamento do ecossistema real. Essa beleza, justamente por eliminar o imprevisível, transforma a cultura em ornamento, perdendo sua vitalidade.
O Dilema da Identidade: Aceitação Externa vs. Erosão Interna
Não se trata de rejeitar o turismo ou o intercâmbio cultural, mas sim de alertar para o risco de o Rio se tornar apenas um aquário, abdicar de sua complexidade e adaptar sua linguagem para agradar. Suavizar contradições para não assustar e transformar a identidade em performance contínua pode trazer benefícios econômicos a curto prazo, mas cobra um preço alto na cultura a longo prazo.
O dilema do Rio reside em ser reduzido ao que não incomoda. Entre o aplauso externo e a erosão interna, a cidade corre o risco de trocar sua densidade e autenticidade por uma aceitação superficial. Tendências passam, mas a perda simbólica e a erosão da identidade cultural permanecem, transformando a cidade de narrativa viva em mera imagem rentável e descartável.
Fonte: O Globo
