O calor que sufoca: Favelas do Rio de Janeiro na linha de frente da crise climática
Temperaturas extremas no Rio de Janeiro transformam a vida de milhares de pessoas em favelas. Moradias sem ventilação adequada e a falta de recursos para amenizar o calor intensificam o sofrimento, expondo uma profunda desigualdade social e ambiental.
Enquanto parte da população pode recorrer a ar-condicionado e outras comodidades, residentes de comunidades como Chapéu Mangueira e Babilônia enfrentam o calor em condições de vulnerabilidade acentuada. A situação é um reflexo direto das disparidades na cidade.
Pesquisadores de universidades brasileiras e internacionais, em parceria com ONGs locais, buscam agora quantificar e entender esses impactos, visando propor soluções concretas para mitigar os efeitos da mudança climática nas populações mais expostas.
Desigualdade Urbana Amplificada pelo Clima
A pesquisa, que envolve a Universidade de Utrecht (Holanda), a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Unilasalle e a ONG Revolusolar, está instalando termômetros em residências nas favelas do Chapéu Mangueira e Babilônia. O objetivo é medir a temperatura interna e entender como ela afeta a rotina e a saúde dos moradores.
Moradores participarão ativamente, documentando em “diários de calor” suas experiências diárias com as altas temperaturas. Essa abordagem busca capturar a vivência real e os desafios enfrentados em um contexto onde as construções são adaptadas à necessidade, e não ao conforto térmico.
Construções Precárias e Vulnerabilidade Climática
Valdinei Medina, presidente da Cooperativa de Energia Renovável Percília e Lúcio, destaca a realidade das construções em favelas: “A gente não tem arquiteto, a gente não tem engenheiro, a gente faz por uma questão de necessidade”. Essa improvisação, embora essencial para a moradia, agrava a exposição ao calor extremo.
A falta de planejamento urbano que considere as especificidades climáticas e as condições socioeconômicas das comunidades contribui para que o calor se torne um problema de saúde pública e de justiça social. A pesquisa visa justamente trazer esses dados para a formulação de políticas públicas mais eficazes.
Em Busca de Soluções Sustentáveis e Justas
Francesca Pilò, coordenadora do projeto e professora da Universidade de Utrecht, ressalta que os dados coletados servirão de base para políticas públicas que considerem as condições internas das residências, e não apenas a temperatura ambiente externa. A iniciativa é vista como um ponto de partida crucial.
O estudo busca evidenciar como a mudança climática, frequentemente vista como um evento ambiental, possui fortes componentes políticos e amplifica desigualdades urbanas preexistentes. A busca por soluções passa pela conscientização e pela implementação de medidas que promovam resiliência climática nas favelas.
Fonte: Reuters
