Investigação sobre Banco Master Expõe Redes de Influência Política e Jurídica
As investigações da Polícia Federal sobre a liquidação do Banco Master pelo Banco Central brasileiro trouxeram à tona as extensas conexões de Daniel Vorcaro, seu fundador e CEO, com o cenário político e jurídico do país. A segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quarta-feira (14/1), realizou buscas em endereços ligados a Vorcaro e familiares, além de empresários e ex-executivos de fundos de investimento.
Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em diversos estados por determinação do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), que também determinou o bloqueio de bens e valores superiores a R$ 5,7 bilhões. Inicialmente, o material apreendido seria lacrado na sede do STF, mas, após pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), a custódia foi transferida para a PGR.
A defesa de Daniel Vorcaro afirma que ele tem colaborado integralmente com as autoridades. Advogados de outros alvos da operação, como João Carlos Mansur e Nelson Tanure, também se manifestaram, ressaltando a disposição para esclarecimentos e a ausência de envolvimento em práticas ilícitas.
O Caso do Banco Master e o Risco ao Sistema Financeiro
O Banco Master, embora não fosse um dos maiores do país em termos de ativos, representava um risco significativo para o sistema financeiro brasileiro, segundo especialistas. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou o caso como uma potencial “maior fraude bancária” do país. A liquidação do banco ocorreu após suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito para o Banco de Brasília (BRB).
Um dos maiores impactos da quebra do Master é o risco para o Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Os R$ 41 bilhões em depósitos bancários de 1,6 milhão de investidores representam um terço do caixa do fundo, que atua como seguradora para depositantes.
Conexões Políticas de Daniel Vorcaro
A figura de Daniel Vorcaro chama atenção pelas suas diversas conexões com políticos de diferentes espectros ideológicos. Nomes como Ciro Nogueira (PP) e Antonio Rueda (União Brasil) foram apontados como intermediários na negociação da venda do Banco Master ao BRB, que foi vetada pelo Banco Central. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), também se manifestou sobre o interesse do BRB em adquirir o banco.
O BRB, inclusive, é alvo da Operação Compliance Zero, que investiga a suposta venda de falsas carteiras de crédito consignado do Master. O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi intimado a depor.
Outras figuras políticas também foram associadas ao Banco Master. O ex-ministro do STF e ex-ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, teria tido o banco como cliente. Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, teria sido consultor e apresentado Vorcaro ao presidente. Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central e ex-ministro da Fazenda, integrou um comitê consultivo do banco. O ex-presidente Michel Temer também esteve envolvido em tentativas de mediação para a venda do banco.
As doações eleitorais também revelam laços. Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro e fundador da Moriah Asset, foi um dos maiores doadores de campanha em 2022, para Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Jair Bolsonaro (PL). A campanha de Tarcísio declarou não ter vínculo com Zettel.
Redes de Influência no Mundo Jurídico
As investigações também apontam para conexões no âmbito jurídico. Um contrato de R$ 129 milhões foi encontrado no celular de Vorcaro, firmado com o escritório de advocacia de Viviane Barsi de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. O contrato previa atuação ampla do escritório em defesa do banco. Mensagens internas indicavam a prioridade no pagamento.
A colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, noticiou que o ministro Alexandre de Moraes teria procurado o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar de assuntos relacionados ao Banco Master. Em nota, o STF esclareceu que as reuniões com Galípolo foram para tratar dos efeitos da Lei Magnitsky, que sancionou Moraes e sua esposa, e que o escritório de sua esposa jamais atuou na operação Master-BRB perante o Banco Central.
O advogado Augusto de Arruda Botelho, ex-Secretário Nacional de Justiça, também figura no contexto, tendo um diretor do Banco Master entre seus clientes após deixar o governo. Botelho viajou em um jatinho particular com o ministro do STF Dias Toffoli para assistir à final da Libertadores, na véspera de Toffoli relatar um recurso da defesa de Daniel Vorcaro. Toffoli determinou o sigilo do inquérito e sua transferência para o STF, sob sua relatoria.
Quem é Daniel Vorcaro?
Daniel Vorcaro, 42 anos, natural de Belo Horizonte, ascendeu no setor financeiro ao assumir o controle do banco Maxima e rebatizá-lo como Banco Master. Sua estratégia de captação de recursos por meio de CDBs com taxas de juros elevadas chamou atenção. Vorcaro se descreve como um “outsider” e vítima de preconceito.
Ele também é conhecido por seu estilo de vida luxuoso. Vorcaro foi sócio do hotel Fasano Itaim e, segundo a imprensa, teria gasto R$ 15 milhões em uma festa de debutante de sua filha. Ele também adquiriu 27% da SAF do clube Atlético Mineiro e o Banco Master patrocinou um camarote na Sapucaí.
Fonte: BBC News Brasil
