Governo do Rio desmantela esquema de ‘funcionários fantasmas’ em todos os órgãos estaduais
Uma auditoria interna no funcionalismo público do Rio de Janeiro revelou a existência de “funcionários fantasmas” em todos os 77 órgãos do estado. Estes comissionados, classificados como de “alta criticidade”, não compareciam ao trabalho, não acessavam sistemas ou computadores, levantando suspeitas de recebimento de salários sem contrapartida de serviço.
A investigação, iniciada pela Controladoria Geral do Estado (CGE), levou à exoneração de centenas de pessoas, principalmente ligadas a políticos, à gestão anterior e a ex-titulares de secretarias. A medida visa economizar cerca de R$ 230 milhões até o final do ano.
O levantamento identificou que, entre março e maio, 1.767 funcionários foram exonerados sob a suspeita de serem fantasmas, gerando uma economia mensal de quase R$ 15 milhões. Os primeiros alvos foram as secretarias da Casa Civil, de Governo e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI).
Casos de “alta criticidade” e justificativas apresentadas
Marcelo Cabral D’Almeida, exonerado da Secretaria de Ambiente, alegou que seu trabalho era “em campo”, realizando visitas técnicas a praças e outros locais públicos. Ele afirmou que, embora frequentasse as ruas, também “assinava o ponto”. D’Almeida, filho de um ex-vereador, foi indicado ao cargo pelo ex-secretário Bernardo Rossi, apesar de não possuir formação na área ambiental.
Outro caso é o de Allen Carvalho, líder comunitário, que recebia R$ 6.040,64 e cumpria 40 horas semanais na Subsecretaria de Manutenção em Áreas Verdes Urbanas. Ele declarou que seu trabalho era “externo” e que ficou apenas dois meses no cargo antes das exonerações.
A reportagem do O Globo buscou contato com diversos exonerados. Alguns, como Marcelo D’Almeida, admitiram ter sido indicados por políticos. Outros, como João Antonius Von Seehausen, negaram ser “fantasmas” e afirmaram atuar em campo, mas não autorizaram o uso de suas declarações. Sintilaine Alessandra de Souza Silva, que fez campanha para a família Vieira, alegou estar doente e sem nada a declarar.
Conexões políticas e estruturas extintas
Duas subsecretarias da Secretaria de Ambiente (Seas) tiveram todos os seus funcionários exonerados e foram extintas. Uma delas, com 14 cargos, teve a maioria dos comissionados indicados pelos irmãos Luciano e Léo Vieira. A outra, com 37 vagas, era comandada por Thamires Rangel, filha de um deputado estadual preso por suspeita de fraudes.
Bernardo Rossi, ex-secretário da Seas, negou ter nomeado “fantasmas”, afirmando que parte dos servidores trabalhavam “in loco”. Thamires Rangel também defendeu sua atuação e negou irregularidades.
Economia e medidas de controle futuro
Até o momento, 60 dos 77 órgãos passaram por auditoria, com previsão de economia de R$ 355 milhões anuais. Medidas como pontos eletrônicos e mecanismos de acesso a sistemas são consideradas essenciais para prevenir futuras ocorrências.
As secretarias com maior redução de comissionados incluem Trabalho (78,6%), Esporte e Lazer (75,6%), Turismo (73,3%) e Cultura, Tecnologia e Inovação (65,6%). Os exonerados entram em uma lista especial e não poderão retornar aos órgãos de origem.
Fonte: O Globo
