Tradição que colore a Copa: Vicente de Carvalho se veste de festa
A menos de uma semana para o início da Copa do Mundo, a Rua Taturana, em Vicente de Carvalho, na Zona Norte do Rio de Janeiro, está em plena efervescência. Moradores se unem em um esforço coletivo para transformar a via em um espetáculo de cores e patriotismo, revivendo uma tradição que já ultrapassa quatro décadas. A iniciativa, que já rendeu prêmios no passado, agora mira um novo concurso promovido pela Prefeitura do Rio, com o objetivo de celebrar a paixão pelo futebol e fortalecer os laços comunitários.
A história da decoração da Rua Taturana remonta a 1982, quando os primeiros enfeites, modestos com duas bandeiras e um mascote, surgiram no muro de um vizinho. Com o passar das Copas, a ideia floresceu, mobilizando cada vez mais moradores. Em 1998, a dedicação rendeu o primeiro grande reconhecimento, com a vitória em um concurso do Jornal O DIA, que presenteou a rua com 29 televisores de 29 polegadas. A tradição se consolidou, com a rua também sendo premiada em 2007, durante os Jogos Pan-Americanos, e em 2010, pela Copa do Mundo na África do Sul.
Após um período de menor engajamento em 2014, a comunidade de Vicente de Carvalho decidiu reacender a chama da tradição, com um foco especial nas novas gerações. O objetivo principal é proporcionar às crianças a experiência de vivenciar a atmosfera festiva e o espírito de união que a decoração proporciona, incentivando o aprendizado e a criatividade através da arte e do esporte.
Um legado de união e criatividade passada de geração em geração
Niblan da Silva, 75 anos, um dos organizadores, relembra com carinho o início da tradição e a importância de mantê-la viva. “As crianças precisam ter esse engajamento, eles não viram isso que a gente passou aqui”, afirma, destacando como a decoração se tornou uma ferramenta educativa, onde crianças aprendem a desenhar e a se expressar artisticamente nos muros da rua.
Carlos Alberto, 69 anos, outro morador que acompanha a decoração desde o começo, ressalta a participação familiar e comunitária. “Esse ano voltamos com tudo. Todo mundo se junta, fazemos um Pix e quem pode ajudar, ajuda.” Ele enfatiza a alegria de ver as pessoas elogiando a rua e a importância de manter essa rivalidade amistosa com outras ruas decoradas.
Cláudio Maravilha, 38 anos, engenheiro e morador, expressa a nostalgia de poder transmitir essa vivência para as crianças. “Hoje a gente vê como uma obrigação fazer isso para as crianças, da forma mesma com que foi feito pela gente um dia.” Ele destaca o valor educativo da atividade, que ensina Geografia, história e estimula o trabalho em equipe, além de tirar as crianças do mundo digital.
Expectativa pelo Hexa e a força da comunidade
A expectativa para a Copa do Mundo deste ano é grande entre os moradores. Giovana Aleixo, 14 anos, e Luisa Aleixo Manhães, 11 anos, participam ativamente da pintura e demonstram confiança no Hexa. “A gente está muito confiante que o Hexa vem esse ano”, diz Giovana, enquanto Luisa complementa: “É muito legal e eu amo colorir também.” Antônia Liz, 8 anos, em sua segunda Copa decorando a rua, brinca sobre o desempenho do Brasil e a expectativa pelo título.
Tânia Alves, 56 anos, cabeleireira, garante a alimentação dos voluntários, demonstrando o apoio logístico que sustenta a tradição. “Faço comida para todos, mas já pintei bastante.” Ela ressalta a importância do apoio dos mais novos para dar continuidade ao trabalho iniciado pelos antigos moradores, muitos dos quais já se foram.
A artesã e grafiteira Bruna Soares, conhecida como Moma, 40 anos, veio de São João de Meriti para participar da pintura, atraída pela história da rua. “Eu fui convidada para participar desse evento e, aqui, fiquei conhecendo a história da rua.” Wagner Magalhães, 42 anos, motorista de aplicativo, relembra sua participação desde adolescente em 1998 e celebra o retorno com força total da tradição.
Concurso da Prefeitura e celebração nos dias de jogo
A decoração da Rua Taturana concorre ao prêmio do concurso “Acreditar é uma Arte: O Rio nas Cores do Hexa”, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura, que distribuirá R$ 100 mil para as ruas mais bem decoradas. A iniciativa visa valorizar a ocupação cultural dos espaços públicos e fortalecer as tradições comunitárias.
Para os dias de jogo, os moradores planejam um clima de festa e confraternização. “A gente vai montar um telão para o pessoal vir ver o jogo do Brasil e confraternizar”, afirma Wagner Magalhães. A primeira partida do Brasil está marcada para o dia 13 de junho, contra Marrocos.
Inspiração em outros bairros
A iniciativa de decorar ruas para a Copa do Mundo não se restringe a Vicente de Carvalho. Outros bairros do Rio de Janeiro também aderiram à tradição. Em Vila Isabel e na Tijuca, moradores coloriram as ruas com bandeiras e desenhos em homenagem à Seleção. Na Rocinha, a Via Ápia, principal rua da comunidade, ganhou vida com pinturas e bandeiras, em um projeto que envolveu dezenas de pintores e voluntários. Bento Ribeiro, na Praça do Espirro do Grilo, também se encheu de cores e desenhos.
Fonte: G1
